quinta-feira, 19 de agosto de 2010

No melhor dos mundos

Por Eduardo Louro


 


 


Afinal não é tudo mau!


Um dia destes – cinzento, bem escuro e mesmo meio frio – acaba por ser diferente e quebrar o ritmo normal das férias. De tal forma que até dá para substituir um mergulho na praia por um mergulho no Quinta Emenda, também ele um pouco abandonado pelas férias…


A verdade é que um dia como este de hoje não é mais do que um pequeno intervalo nas férias. Não para compromissos publicitários mas apenas uma pequena pausa. Não para fazer um xixi, mas apenas dar uma olhada à volta e reparar que tudo continua de férias. Que está tudo bem, tudo certo no seu lugar!


E dá para perceber que, mesmo em férias, continuamos bem governados e no melhor dos mundos. Mesmo nos indicadores próprios desta época do ano só temos boas notícias.


Agora que os incêndios, pelos vistos pelas mesmas razões que eu, também estão a fazer uma pausa, é o balanço da área ardida que passa para a ordem do dia. Mais de 70 mil hectares, diz-se!


É muito? É uma catástrofe?


Não, diz-nos o ministro da administração interna. É menos que 2003 e 2005, enfatiza!


Espantoso! Afinal não há qualquer problema com os incêndios, todas a políticas que desembocam na prevenção – ordenamento territorial, demográfica, florestal, etc. – é tudo do mais acertado possível. O desempenho dos serviços de Protecção Civil é excelente. Tudo perfeito, porque a área ardida neste ano é inferior à ardida em 2003 ou em 2005.


Mas, e Lapalisse não diria melhor, então é superior à de todos os outros anos. Quer dizer, percebemos que a ideia é simples: está tudo bem quando comparado com o pior possível!


Confesso que não me parece que o balanço dos incêndios se deva fazer exclusivamente à custa de um resultado, no caso a área ardida. Todos percebemos que um hectare de mato numa área não qualificada nada tem a ver com o mesmo hectare numa área protegida ou de floresta. Os milhares de hectares ardidos no Parque Nacional do Gerês são um resultado diferente dos mesmíssimos milhares noutro lado.


Tudo isto para dizer que fazer um balanço exclusivamente a partir da área ardida já me parecia uma leviandade. Agora fazê-lo por comparação com os piores resultados …


Claro que não acho que o papel do governo seja o de enfatizar a desgraça. Concordo que deva puxar a nossa auto estima colectiva para cima, impedir um clima generalizado de descrença e de incapacidade e que tudo faça para mobilizar a nação. Mas não é a inverter sistematicamente a realidade que isso se consegue.


As empresas recorrem ao benchmarking (identificação das melhores práticas para comparação do seu desempenho) para se desenvolverem e atingirem o sucesso. O governo faz o inverso: busca as piores práticas para comparar o seu desempenho!


Está a fazê-lo sistematicamente. O que é muito grave: um destes dias procura, procura … e já não encontra nada que se compare! Então deixaremos de viver no melhor dos mundos…


 


 

2 comentários:

  1. É o princípio da relatividade mais uma vez ao serviço da política (muitos historiadores e físicos atribuem a criação da fórmula que explica a teoria da relatividade ao físico italiano Olinto De Pretto que, especula-se, terá desenvolvolvido a fórmula 2 anos antes que Albert Einstein e que teria previsto o uso da teoria para fins bélicos e catastróficos, como o desenvolvimento de bombas atômicas).

    Em tempos de crise (qualquer que seja) o worst case scenario é o nosso melhor amigo... aquele que consola a nossa dor, apazigua a frustração e alimenta a revolta contra a outra parte do mundo que revela o outro lado das estatísticas. É um amigo bem simpático, mas é um falso amigo. Que apenas vive das nossas lágrimas. Por isso teremos que chorar para sempre - por ele e para ele.

    Por vezes deixo-me seduzir pelos encantos do worst case scenario. Às vezes é preciso. Mas fui educada a enfrentar a realidade no seu sentido absoluto: sem desculpas, sem contextos, sem relatividade.

    Foi por o meu pai me ter dito que um 12 não era uma boa nota em parte nenhuma do mundo ( nem mesmo na Clássica, em oral de passagem com o pior juri de sempre) que terminei a minha licenciatura com média de 16 e que todas as portas se abriram, especialmente as mas importantes de todas - as da minha auto-confiança.



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    1. Pois! Que posso acrescentar para além de aplaudir este brilhante comentário?
      Que, mais que em tempos de crise e de recurso ao worst case scenario, é o jogo político. O jogo em que o governo elogia sempre e a oposição critica sempre. Perverso, que leva à sublimação e, depois, à subversão! Já não é a velha história da garrafa meio cheia ou meio vazia. É a patetice no seu maior esplendor!

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