quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Caça ao Cavaco

Por Eduardo Louro


   


O tema é-me sugerido, com a devida vénia e em jeito de comentário, por este post de Rui Rocha no Delito de Opinião.


Concordo em absoluto que o caso BPN esteja a secundarizar ou mesmo eliminar tudo o que seja relevante discutir nesta campanha, seja no que respeita ao passado, de avaliação do desempenho presidencial do candidato à reeleição, seja no que se projecte no futuro, de avaliação das propostas dos candidatos.


Mas não concordo nada com a tese de que tudo o que tenha a ver com avaliações de carácter não deve caber nesta campanha. O carácter é o primeiro e mais decisivo factor de avaliação da pessoa, de qualquer pessoa, indissociável da avaliação quer do seu desempenho e da sua história quer das suas potenciais capacidades de desempenho futuro.


O que neste caso, ou neste particular do chamado caso BPN, está em causa, não é qualquer relação do negócio de Cavaco com a ruína do BPN. Nem é um negócio particular realizado 6 anos antes do estoiro. Nem a gestão do BPN, antes e depois. Nem o regulador.


Tudo isso é importante! Mas não é, neste particular, o que conta. O que conta, o que está aqui em causa, é que o negócio deve ser esclarecido.


Esta é uma exigência incontornável perante a qual toda a gente assobiou para o lado. O Expresso que, de resto e tanto quanto sei, foi quem trouxe o negócio a público, tentou, aqui há uns anos, obter esse esclarecimento junto de Cavaco Silva. Em vão: Cavaco não deu cavaco! E o Expresso meteu a viola no saco


O assunto apenas regressaria pela mão de Defensor de Moura no debate televisivo com Cavaco Silva. E o que fez a Comunicação Social? Tratou-o como se de um terrorista se tratasse e anunciou aos sete ventos que não era por aí … Que não era pela via do carácter e da honorabilidade de Cavaco que se poderia entrar. Isso era inexpugnável e acima de toda e qualquer suspeita.


E o que fez Cavaco? Pura e simplesmente disse que “era preciso nascer duas vezes para ser mais honesto que ele”!


Mas esclarecer é que nada!


Surge então o debate entre Cavaco e Alegre, na passada semana, dia 30. Foi com evidente medo – sim, medo – que Alegre tocou ao de leve no assunto. Afinal os media já tinham dito de que lado estavam e Alegre não quis correr riscos.


Que fez agora Cavaco? Atacou a gestão CGD do BPN, meteu os pés pelas mãos com os exemplos dos bancos ingleses, e voltou a mandar o pessoal para a Internet!


E a Comunicação Social, que fez agora? Parece-me que também não quis correr riscos…


É a partir deste tiro de aviso e amedrontado que acaba por abrir a caça ao Cavaco. Acredito que por uma razão: porque aos media pareceu que, depois de Alegre ter dado o tiro – já não era um dos candidatos de segunda – se estava perante um caçador e não um aprendiz de terrorista. E, claro, amplificou o tiro a medo de Alegre que, depois disso, e vendo que já não corria qualquer risco, correu a casa a pegar na espingarda e nunca mais parou de atirar.


Evidentemente que abriu a caça a Cavaco. Mas só isso: ele continuará a esquivar-se dos chumbos e será reeleito nas calmas. Nada será esclarecido, a imprensa – especialmente aquela onde os tentáculos do monstro estão, ou chegam mais facilmente – vai branqueando como já se vê por aí, e mais ninguém voltará a tocar no assunto. E alguns (poucos) portugueses continuarão a ter dúvidas sobre um negócio de que apenas sabemos que vendeu acções. Nunca saberemos o que comprou!


 

3 comentários:

  1. Como em todas as campanhas eleitorais, os candidatos, especialmente os próximos do poder, precisam de criar manobras de diversão. Enquanto se fala do BPN não se fala de coisas que contam.

    Um segredo é como um frasco de tinta bem rolhado dentro de uma piscina. Não há forma de o abrir sem deixar rasto. Ninguém pode dele ter conhecimento. E se por acidente este for aberto, só há uma saída possível... despejar muita e muita tinta de cores diversas dentro da mesma piscina.

    Lembro-me disto sempre que vejo estes senhores que até fecham os olhos quando falam com tanta seriedade sobre a ética republicana e fingem que os casos Cova da Beira, licenciatura ao domingo, Freeport, apartamento na Rua Castilho, PT/TVI (acho que ainda faltam outros, mas entrei em modo de poupança de consciência há algum tempo) não passam de cabalas.

    Falta apenas dizer que não votarei Cavaco.

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    1. Olá Paulo,

      Tudo o que diz ou é certo ou merce o meu crédito. A mim parece-me que independentemente de tudo isso, como de resto afirmo no post, há uma questão de caracter a esclarecer. Essa questão não desaparece pelo simples de chegar ao grande público através da campanha eleitoral, de chegar da forma que chegou ou de outra qualquer, de todas as tropelias, trapalhadas e aldrabices do PM ou de todos os telhados de vidro que todos os candidatos tenham ou não. "Cada macaco no seu galho"! É este macaco que agora está neste galho... Aquela coisa bem portuguesa de "uma mão lavar a outra" é, como muitas outras coisas bem portuguesas, inimiga da democracia.

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    2. O Editorial do insuspeito Público, de hoje, talvez ajude a contribuir para acabar com a ideia que se quer fazer passar que esta é uma "estória" de perigosos esquerdistas e para, sem qualquer dúvida, a colocar no seu verdadeiro lugar - no âmago da democracia. Este é um problema de democracia e não um problema de esquerda e direita e nem sequer de quem apoia ou não Cavaco Silva. Apenas a falta de sentido democrático empurra as questãoes para becos sem saída como é neste momento o caso.
      Aqui fica uma passagem desse Editorial, onde se diz que Cavaco não está a lidar bem com o assunto:
      «E não está porque não percebeu ainda que o seu longo passado pela política ou a sua actual condição de Presidente da República não bastam para o colocar numa situação de excepção no debate político da campanha eleitoral; e também por não ser capaz de reconhecer que, em democracia, não há limites ao escrutínio dos candidatos em matérias relacionadas com o seu património, principalmente quando em causa estão relações com um banco gerido por uma quadrilha que vai custar pelo menos dois mil milhões de euros aos contribuintes. Cavaco Silva tem todos os motivos para defender a sua honestidade; mas tem de aceitar que os seus adversários políticos exijam “a verdade toda” em torno da sua participação e lucros no BPN [...] Ao não o fazer, e pelo contrário protestar, [...] Cavaco cava mais o cerco em que caiu. Só o romperá quando perceber que em democracia há perguntas que só se apagam com respostas.»

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