domingo, 23 de janeiro de 2011

Pronto. Já votamos!

Por Eduardo Louro


  


 A maioria de uma parte, de menos de metade, dos portugueses reelegeu, como se sabia e conforme sempre aconteceu com os seus antecessores em democracia, Cavaco Silva.


A maioria, uma maioria cada vez mais clara, dos portugueses deixou de se interessar por estas coisas. Não é exactamente uma novidade, mas é uma realidade cada vez mais preocupante!


O resultado de Cavaco nem é a vitória esmagadora que alguns esperavam – nunca o poderia ser, mesmo que fosse bastante mais expressiva, face aos números da abstenção que não surpreendem ninguém – nem exactamente um flop que lhe belisque qualquer legitimidade!


O resultado de Manuel Alegre também não é surpreendente: o seu passado mais recente, os mixed feelings da anacrónica coligação partidária de suporte da candidatura e o seu desempenho em campanha não legitimavam aspirações mais ambiciosas.


Surpreendentes, ou pelo menos de surpresa relativa, são os resultados mais identificáveis com o voto de protesto – as candidaturas de José Manuel Coelho e de Fernando Nobre!


O atípico candidato madeirense, com um resultado nacional acima dos 4%, mas com mais de 37% na Madeira (ai se isto fosse transponível para as eleições regionais…), representa não o anedotário com que facilmente se poderia rotular, mas o puro protesto. Parece-me que nas próximas legislativas poderá até chegar ao parlamento. O que, a suceder e ao contrário do que se possa esperar, não é lisonjeiro para o sistema!


O resultado de Fernando Nobre, acima dos 14%, tem, na minha modesta opinião, um significado muito importante. Manifestei-me aqui como um dos muitos decepcionados com a sua candidatura, uma decepção que provinha do cruzamento da enorme esperança numa candidatura vinda de fora do sistema, da mais despretensiosa e genuína cidadania, com o desencanto de uma campanha absolutamente frustrante.


Não acredito que a maioria dos portugueses que decide não ir votar o faça apenas por comodismo e por desinteresse. Acredito que isso se aplique a uma boa parte deles, em resultado da vil tristeza em que a nossa democracia caiu. Mas não tenho grandes dúvidas que a outra boa parte o faz porque não se reconhece em qualquer projecto político do cardápio que lhe é apresentado e, mais ainda, porque não reconhece credibilidade a nenhum dos protagonistas que lhe aparecem à frente!


Este resultado de Fernando Nobre abre uma janela de esperança: se com uma campanha já de si fraca e ainda escandalosamente "esquecida" pelos media, e com um candidato que, ao contrário do que muitos esperavam, não soube (ou não pôde) fazer o melhor para potenciar as raízes de uma candidatura civil desta natureza, se chegou até aqui, onde é que não chegaria noutras condições?


Pois é! Este resultado de Fernando Nobre pode levar-nos a admitir que é possível recuperar muita dessa gente que já desistiu de acreditar e, com eles, começar mudar a face deste país. Começando logo por demonstrar que não há fatalidades. Que não é fatal que tenhamos de nos resignar àquilo que, sem alternativa, nos impingem!

2 comentários:

  1. Olá ,

    Talvez seja interessante pensar sobre ( ou no ) nº número de abstenções.

    No fundo, algo que lembra a reunificação da Alemanha e todo o debate que continua a haver quanto ao abstencionismo das populações que conheceram uma ditadura nazi ou fascista na Europa.

    A população da ex-rda abstem-se em grande maioria tal como a população pt. Destinos quase idênticos ! ?

    Porquê ?

    Nuno

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    1. Olá Nuno, muito gosto em voltar a vê-lo por cá!
      Parece-me claro que as ditaduras provocam ondas de choque que se propagam muito para além da sua duração. A ignorãncia e o obscurantismo não morrem ao lado das ditaduras. Prolongam-se por muitas gerações!
      A participação democrática em países sujeitos a regimes ditatoriaisressente-se evidentemente disso.
      No entanto creio que em Portugal isso seja complementado por uma forte descrença com outras origens. Principalmente o descrédito da classe política, por falta de qualidade como se viu nesta campanha eleitoral, mas fundamentalmente por falta de seriedade, em particular no respeito pelos compromissos assumidos. Não se souberam dar ao respeito e, por isso, não são respeitados. A democracia assenta em mecanismos de representação, de que as eleições são o máximo expoente. E a representação não funciona quando não há respeito entre representante e representado...

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