segunda-feira, 28 de março de 2011

MAU FEITIO

    


Por Eduardo Louro


 


A entrevista de Miguel Sousa Tavares (MST) à Presidenta – é assim que gosta de ser tratada – Dilma Roussef, passada na SIC na véspera da sua primeira visita oficial a Portugal e à Europa, teve, para mim, um ponto alto. O entrevistador – personagem que não é conhecido exactamente pelo seu bom feitio – a determinada altura da entrevista, focado na estratégia de combate ao crime organizado no Brasil, referiu o suposto mau feitio da entrevistada. A referência ao seu mau feitio era, na circunstância, aquilo que nós portugueses entendemos como um atributo decisivo para aquele combate: duro - no caso dura, ou mesmo durona –, determinada e implacável!


Dilma fez um silêncio (mais ou menos) prolongado e não conseguiu disfarçar o desconforto. O Miguel Sousa Tavares, afinal como todos os que assistíamos à entrevista deste lado de cá, percebeu que alguma coisa não tinha corrido bem, quando a entrevista até corria solta e na melhor das cordialidades – ele não tinha levado para ali o seu próprio mau feitio –, rapidamente compreendeu que a bronca estaria no mau feitio.


E estava!


Explicaria a Presidenta do país irmão que, no português de lá, mau feitio queria dizer que algo de errado se passava com a sua roupa. Mau feitio tem a ver com problema de costura!


Percebemos, evidentemente, o desconforto. Mesmo sendo uma ex-revolucionária, Dilma é mulher! E é presidenta da república!


Nem sequer coloco a remota hipótese da fama do mau feitio do MST ter chegado ao palácio do Planalto – ao que se diz ele até morre facilmente de amores lá pelas terras de Vera Cruz – e de, prevenida, Dilma Roussef ter reagido já condicionada. Não era necessário tanto para se justificar uma afronta digna de um grave problema diplomático!


O mal entendido seria entretanto e rapidamente esclarecido, acabando afinal por não provocar mais que uma boa rizada, na qual haveria também eu de participar. Mas fiquei a pensar como, afinal, eu entendia aquela interpretação. Como ela me remetia para velhos usos que deste lado de cá demos, em tempos, a esta nossa língua!


Há muito, muito tempo, antes de cá chegar o prête à porter, também era esse o sentido que dávamos ao feitio. Talvez porque então nem sequer tivéssemos direito ao mau feitio ou, quem sabe, porque pobretes mas alegretes!


Pois era. Nesse tempo as mulheres iam às modistas e os homens aos alfaiates, mandar fazer as suas roupas. Levavam-lhes os tecidos – as sedas, os linhos, a fazenda – e pagavam-lhes o feitio!


E aí está como, também por cá, o feitio era o trabalho de confecção da costureira, da modista, como se lhe chamava, e do alfaiate. E, naturalmente, um mau feitio seria mesmo o mau trabalho na confecção do vestuário. Como continua por lá, apesar do pronto-a-vestir!


Enfim, coisas que o mau feitio do acordo ortográfico nunca resolverá!

2 comentários:

  1. Olá,

    Se me permite e se a minha memória é ainda boa ou razoável, atestando-se que se trata de respostas a posts seus mais antigos :

    Mário Soares foi de facto visionário. Graças a ele, os Portugueses já não dão o salto, já não precisam de cartão de residência. Como já tinha referido no Vila Forte desde sempre tem chegado Portugueses a França. Já os que partem para Angola são diplomados ( o Libération fez um artigo há meses sobre o assiunto ). Estes pt que chegam embora não sejam diplomados não são analfabetos. Contrariarmente aos que chegavam clandistanemente durante o fascismo

    Se regressarmos no tempo, é fácil ver que a posição da maioria da classe política Francesa é a favor duma integração da Espanha ( mas não de pt ) na cee. Será Soares, talvez por ter legitimidade para tal discurso, que afirmará que o papel da união é de proteger as democracias frágeis ( caso de Portugal na altura )...

    No que diz respeito a este último post : Há algo que não entendo muito ( não estou a gozar ) bem na sociedade pt. Como é que alguém que escreve em jornais desportivos pode também ser entrevistador político. Nunca vi nenhum jornalista do diário " L'Equipe" entrevistar um chefe de estado.

    Se é verdade que o acordo ortográfico nunca resolverá o porquê de Picheleiro no Porto e o porquê de canalizador em Lisboa ou São Paulo, existem, contudo, quanto a mim, regras civilizacionais que fazem parte do "pret à porter". E as mulheres continuam a ir às modistas e os homens aos alfaites. Depois é uma questão de bolsa. Que infelizmente não é a minha.

    Segundo compreendi o seu texto, mas se calhar mal, Dilma apenas quis mostrar a Tavares que a modernidade também pode ser "reaccionária ou parola" quando perde a memória.

    E a chefe de estado da oitava potência mundial deve ter um excelente número de conselheiros que sabem ler : Quando Tavares exalta o seu entusiasmo pela caça em voo, num helicoptero, é impossível não fazer um paralelo com a caça aos mex que fazem os fazendeiros texanos em helicoptero.

    Eu acho que os Brasileiros têm uma enorme paciência com os pt. O filho não pode matar o pai, né ?

    Mas voltando à vaca fria como se diz por lá no Rio Grande do Sul : Nunca vi ninguém comentar futebol, política e geo-política a sério em simultaneo. Isso é só possível com os dois robots de Star Wars. Lol !

    Como se diz por estas terras : Não é bom misturar alhos com bugalhos / Il ne faut pas mélanger torchons et serviettes.

    Obrigado pela informação dada pelo post.

    Abraço,

    Nuno

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    1. Olá Nuno,
      Grande comentário!
      Mário Soares tem isso a seu crédito, o que não é pouco. Mas infelizmente também já leva muita coisa do lado do débito. E continua a somar, como ainda agora...
      Estou de acordo consigo em tudo o que referiu. Acrescentaria ainda que o homem, para além de escrever sobre tudo, ainda escreve romances que vendem como poucos. A vender romances como ele vende hoje em Portugal só outro "campeão", que se dá pelo nome de José Rodrigues dos Santos e é pivot do noticiário da televisão pública.

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