quarta-feira, 25 de maio de 2011

VAMOS VOTAR (II)

 Por Joana Louro *


Não queria falar de política... Nem da campanha eleitoral. Não concordo com estas eleições: acho que, para o que afinal irão servir, quando o programa de governo é imposto de fora e alheio à nossa escolha democrática, haveria outras alternativas! Não estou de acordo com este modelo de campanha, com custos exorbitantes – apesar de se notar alguma moderação, visível pelos outdoors que se não vêm -, e praças cheias de gente que nem sabem ao que vão - ou que vão para matar a fome num saco de plástico com mais afronta e indignidade do que pão – que não podem votar, porque nem sequer são portugueses... Mas lá vão enchendo as praças sem que consigam encher de vergonha a cara de quem os levou até ali. Não consigo rever-me nisto... Mas também, neste momento, não me é fácil falar de outro tema: agora que o dia 5 de Junho está mesmo aí e a campanha está ao rubro.


 Pertenço a o grupo dos “indecisos”, que permite todas as leituras às sondagens que todos os dias vão animando este carnaval. Porque não me sinto motivada por nenhum dos candidatos nem por uma campanha que não toca nos gravíssimos problemas que temos pela frente para se entreter em fait divers e disparates de toda a ordem. É tudo demasiado mau para ser verdade: quem aqui aterrasse, vindo de outro planeta, nunca conseguiria imaginar que o país vive a sua maior crise do último século. Porque está demonstrada a incapacidade dos candidatos para apresentarem um projecto com segurança e credibilidade para um país que está no abismo económico e em total desagregação social. Porque não reconheço em nenhum dos candidatos suficiente capacidade pessoal, altruísmo e distanciamento das máquinas partidárias que garanta a composição de uma equipa de mérito para mudar o país... Porque a decisão de votar num candidato pelo único motivo de expulsar de lá o outro me sabe a pouco, a muito pouco... Ainda que possa ser compreensível, é triste. Este é um motivo que não legitima uma vitória, nem o próximo líder nacional...


Desde muito pequenina que os meus pais me ensinaram que a democracia era coisa muito séria. E votar era um direito e um dever, mas sempre um acto de grande responsabilidade... Cresci a acreditar nestes princípios e ao alcançar a maturidade cívica tentei aplicá-los com seriedade e responsabilidade. Pois o problema é que não revejo no único motivo que poderia decidir o meu voto – o voto útil, para expulsar um “criminoso” - responsabilidade social ou cívica. Reconheço-o apenas como um acto de desespero. E o resultado deste tipo de decisões nunca é bom... E este é o cerne da questão e o motivo da minha angústia.


Hoje, já grandinha, continuo a considerar a democracia coisa séria, muito séria, ainda que já lhe reconheça inúmeros defeitos... Afinal, como dizia Churchill, a democracia é o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros. Por isso no dia 5 de Junho irei votar, mesmo não sabendo em quem, mesmo com muita angústia e preocupação, e sobretudo muito desencanto. E na realidade este é o meu único apelo: Votem. Não podemos permitir, por maior que seja a desilusão e o desencanto, que a abstenção diga ao mundo que nos estamos nas tintas ou que desistimos. Por nós, pelo nosso país, pelo futuro dos nossos filhos... mesmo dos que ainda não nasceram!


  


* Publicado hoje no Jornal de Leiria


 

6 comentários:

  1. Falar de política não é pecado.

    Parece-me importante votar. O direito ao voto não foi dado mas conquistado. Millhões de homens e de mulheres lutaram e morreram para o conquistar.

    Mas talvez o turbo liberalismo, cujo um dos maiores porta voz é Durão Barroso e Cavaco Silva, em Portugal, tenha dado a pensar que as sondagens são o voto e a expressão da democracia directa. Se as sondagens existem, porquê votar ?

    Não tenho dados quanto a Portugal. Relativamente à Espanha : A economia informal ou paralela representa 30 milhares de euros .

    Sem fiscalidade a razão de estado não existe ( Richelieu ).

    E há ainda quem pense que De Gaulle que nacionalizou bancos, os serviços públicos, parte da indústria automóvel, transportes ... era revolucionário. Lol .

    Nuno

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    1. Claro que é importante votar, Nuno. Não há alternativa à democracia representativa, que, como diz, é uma conquista civilizacional por que muitos homens e mulheres deram a vida.
      As sondagens são um negócio. E um negócio donde a ética se afasta muito frequentemente. Ainda agora, nesta campanha em curso, temos sondagens ao pequeno almoço, ao almoço, ao lanche e ao jantar. Para todos os gostos e todos os interesses...
      A economia paralela em Espanha (o número que apresenta é certamente lapso) é histórica e de grande dimensão. Explica de resto a tradicionalmente elevadíssima taxa de desemprego que, antes da adesão à então CEE, era de 20% mas nas calmas, sem dramas... Em Portugal estima-se em 25%, qualquer coisa como 40 mil milhões de euros.

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    2. Olá,

      Eis os números exactos quanto à economia paralela ou informal Espanhola.

      Fontes : Fmi, ocde, eurostat

      22 por cento do pib.

      "30 millards de euros" ou seja : 30 mil milhões ( em pt europeu ) , 30 bilhões ( em pt americano ).

      Qual o peso da fiscalidade em Portugal ?

      Como é possível ver tantos carros que custam mais de 30 000 euros a circular em Portugal ? Pagam imposto ou não ?

      Porque é que uma consulta num genaralista em Portugal é o dobro duma consulta num genaralista aqui ? Os salários não são os mesmos, quer em Portugal quer em França.

      Não tenho qualquer partido a propôr.

      E as eleições pt também não me dizem respeito, exceptuando que acredito na Europa.

      Nuno


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  2. Pois é... a politica tem de se tornar uma responsabilidade dos cidadãos. O politico é o que vive na Polis. A democracia é o sistema que existe para dar a palavra aos cidadãos. Para que as coisas nela funcionem, para que seja viável, os cidadãos elegem os seus representantes. Como sabemos, a regra da maioria permite clarificar os decisores politicos por um período de tempo com sujeição ao escrutínio de todos os outros. Nestes, inclui-se obviamente a parte minoritária dos eleitos mas deveria estar incluido todo o povo. Só promovendo a democracia participativa se melhorará a qualidade de quem nos representa. Participar, participar, participar... enquanto politicos, que é o que somos todos. Quando dizemos que os politicos são isto e são aquilo, a responsabilidade deveria ser assumida por todos nós, principalmente por todos aqueles que se estão marimbando...como se estivessem de fora. Se há desilusão, a desilusão somos nós. Participemos no PCP, no CDS, no PSD, no PS, no MRPP ... formemo-nos na interação inteligente, criemos outros partidos, novas ideologias, apontemos rumos para melhorar a nossa sociedade. Antigamente os gregos, durante a democracia, faziam questão de ter na ágora todos os cidadãos (sabemos que havia discriminação com as mulheres, os escravos e os estrangeiros) para tomar as grandes decisões, sendo que aos mais pobres ou que estavam a trabalhar era-lhes pago o tempo para estarem presentes e participarem. Para mim, o mal da nossa democracia representativa é a fraca democracia participativa que temos. Antigamente, os antigos alquimistas diziam :o que está em cima está em baixo.

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    1. É a grande verdade, António: sem democracia participativa não há democracia representativa! Uma sociedade abstencionista nunca pode ser democrática.
      E dás outra grande lição quando afirmas que se nos limitamos a criticar a classe política que temos, sem nada fazer para a obrigar a reciclar-se, passamos a ser seus cúmplices. Está aí esse desafio cívico de integrar as estruturas partidárias - existentes ou a criar - de forma a provocar a mudança. Poucos são os que o querem aceitar, e menos ainda são os que lhe respondem por exclusivo apelo do dever cívico, como tu fizeste. Dou-te os parabéns por isso!

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    2. Não tenho qualquer duvida sobre essa verdade: sem democracia participativa não há democracia representativa... Nem sequer se poderá falar de democracia. Por isso apelo ao voto! Por isso a grandeza e importância deste acto.
      Agora... uma participação cívica e social responsável e séria não tem de ser obrigatoriamente partidária... Há, e ainda bem, outras formas igualmente importantes, ainda que menos eficazes de o fazer... E isto também foi uma conquista da democracia...

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