sexta-feira, 17 de junho de 2011

"COPIANÇO"

Por Eduardo Louro


 


Foi a notícia dos últimos dois dias e talvez a notícia da semana, batendo aos pontos a da saga do próximo governo. Ontem tomou conta do espaço mediático: jornais, rádios, televisões, blogosfera e redes sociais pouco mais fizeram que dar eco da indignação geral e das ondas de choque que a notícia provocou.


Também eu fiquei chocado com as notícias do copianço geral dos 137 alunos do CEJ. Mas, confesso desde já, com as notícias! Por isso, ontem não me pronunciei e optei por deixar passar algum tempo para que a poeira assentasse. De facto este episódio e as suas sucessivas narrativas são um bom exemplo de como se faz comunicação e opinião neste nosso país.


Num teste de Investigação Criminal e Gestão de Inquérito (ICGI), os alunos do Centro de Estudo Judiciários (CEJ), teriam copiado. A notícia começou a circular em moldes inequívocos: até as respostas erradas eram exactamente iguais, o que teria levado a directora do curso, porque já não haveria tempo para repetir a prova, a correr toda a gente com 10, numa escala de 0 a 20.


O resto já toda a gente conhece: desde a reacção do Bastonário da Ordem dos Advogados, à dos sindicatos das magistraturas, dos mais diversos agentes às das próprias estruturas do CEJ e até de ex-Presidentes da República. Multiplicaram-se por toda a parte as acusações de fraude e de desonestidade daqueles que, dentro de pouco tempo, serão responsáveis pela aplicação da justiça e as conclusões de que este seria o paradigma da Justiça: incompetência, desonestidade e, the last not the least, perante a incapacidade crónica de encontrar os culpados, lavar as mãos como Pilatos atribuindo nota 10 a todos os alunos, tenham ou não copiado.


Dentre as páginas de jornais, as horas de rádio e de televisão, os inúmeros posts na blogosfera e as centenas de comentários saliento aqui uma entrevista de Mário Crespo ao sociólogo Boaventura Sousa Santos na SIC Notícias. Confesso que, pese o respeito que aquele jornalista me merece, não sou grande apreciador do seu estilo desgraçadista e exuberantemente opinativo sempre misturado com um assinalável espírito reverencial pouco compaginável com a sua exuberância. Adianto ainda que, tanto quanto sei, o sociólogo Boaventura Sousa Santos, por razões que se poderão muito bem justificar mas que eu não entendo bem, tem responsabilidades pedagógicas no SEJ: conhecedor privilegiado, portanto, do que por lá se passa.


Nesse espaço informativo, enquanto o sociólogo não descolava da vox populi sobre a matéria, e acentuava a necessidade de todo o processo de selecção e formação daqueles futuros magistrados escolher os melhores entre os melhores, sempre com a cumplicidade bem expressa do jornalista, que dissertava sobre as passagens administrativas dos tempos do PREC, acentuando o carácter baldista da formação dos magistrados e enfatizando a nota 10 como forma de assegurar a passagem toda aquela gente incompetente e impreparada.


Ora bem, o que acontece é que aqueles137 alunos do CEJ – ou a sua grande maioria, porque há uma pequena quota para pessoas já profissionalizadas – chegaram ali depois de passarem por sucessivas e exigentes provas de avaliação que deixaram pelo caminho largas centenas de candidatos. O que acontece é que aqueles são mesmo os melhores de entre todos os que um dia ambicionaram fazer uma carreira na magistratura e que ali discutem, palmo a palmo, a melhor nota. A nota que os acompanhará ao longo da carreira e que marcará o seu futuro, para quem, como é evidente, um 10 é uma penalização severa: ali, eles disputam os 16 e os 17, e só não disputam os 18 e os 19 porque essas são, ali, notas proibidas. E, isto, embora devesse, poderá Mário Crespo não saber. Mas Boaventura Sousa Santos sabe-o!


E o que ainda acontece é que o teste em causa era do tipo americano (de resposta múltipla, assinalada por cruzinhas) onde, como é evidente, não é sério dizer que as respostas erradas eram todas iguais. Porque as respostas estão lá, todas iguais: certas e erradas. Como, mais uma vez, Mário Crespo, embora devesse, poderia não saber e Boaventura Sousa Santos bem saberia.


Não estou, obviamente, a fazer a apologia do copianço. Muito menos a sancionar a decisão da direcção do SEJ de resolver o problema com um 10 colectivo. Não é a solução desse problema que me preocupa. O que me preocupa é a forma ligeira e irresponsável como os media tratam as coisas, a maneira fácil, irresponsável e populista de fazer informação. E, nisto, a Justiça tem sido sempre um alvo fácil. É também por isto que a Justiça está no estado em que está!

6 comentários:

  1. Se este assunto tivesse a importância no país que tem no contexto global da avaliação do CEJ, seria de 4%.
    Mas parece que, afinal, esta é que é a grande questão de Estado que urge discutir.
    Quero contribuir para esse debate. E, para isso, é preciso falar com verdade… coisa que apenas aqui no “quinta emenda” vi ser feito.
    Estes 137 auditores, após um duro e exigente processo de recrutamento (não venham os tolos invejosos deste país dizer que só se entra por cunha… isso é conversa de ressabiados que não entraram ou de cobardes que nem nunca ousaram tentar); iniciaram um verdadeiro ano de clausura no Limoeiro: com cerca de oito horas de aulas por dia, com avaliação constante, apresentação de trabalhos diária, exames praticamente todas as semanas, tantas vezes, mais do que um por dia. Durante este ano, a vida suspende-se: as horas de sono e os fins-de-semana de visita à família são adiados até às férias do Verão.
    Durante este ano, os auditores de Justiça são avaliados em mais de 16 módulos de formação, uns essenciais ao exercício da magistratura, outros essenciais à empregabilidade dos discípulos do Senhor Boaventura. Primeiro vendeu-se a ideia de que os magistrados eram pessoas alheadas da realidade social, depois vendeu-se um plano de curso repleto de sociologices e, agora, um relatório bombástico do Observatório da Justiça (novamente o Sr. Boaventura e sus muchachos) vem-nos dizer que devia haver magistrados de outras áreas (por exemplo de sociologia) …
    E este é só o 1º ciclo de formação, contrariamente ao que o Dr. Marinho Pinto afirmou, estas pessoas não vão exercer funções daqui a 3 meses. Daqui a 3 meses, os Auditores de Justiça iniciam outro ano de trabalho nos Tribunais, em que assistem a todas as diligências e simulam todos os despachos e decisões do seu formador. Só depois é que dão início a 18 meses de estágio. E, finalmente, se forem considerados aptos, iniciam funções como juízes ou procuradores nas comarcas mais recônditas deste país, longe da família (mais uma vez).
    É claro que o Sr. Boaventura, no citado relatório, pretende terminar com esta formação prática e criar grupos de reflexão e debate sobre os processos (que em muito contribuiria para a celeridade e eficácia da justiça).
    Todo este lamentável episódio se resume, quanto a mim, numa palavra: inveja.
    Os magistrados são uma elite. Os portugueses são invejosos: cobiçam os ordenados e o estatuto e até invejam a estoicidade e o espírito de sacrifício que tem que se ter para se ser magistrado neste país. O que não é para qualquer um …







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    1. Tudo o que é referido leva-me a estranhar ainda mais a figura de Boaventura Sousa Santos na conversa ou entrevista referida no post .
      Já o Mário Crespo repetiu hoje a dose, naquela sua exuberância de entrevistador/entrevistado (ele entrevista-se a si próprio) com o vice-presidente do CSM .

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  2. Quem nunca copiou na escola que atire a primeira pedra.
    Ainda assim se me é permitido, e sem me atrever a ser o advogado de acusação dos futuros magistrados, acredito que uma das vertentes de um sistema de justiça eficaz será a pedagogia que podemos também associar à dissuasão do potencial prevaricador.
    Este caso é mais um que alimenta a tendência inegável do descrédito da justiça aos olhos da sociedade.
    Podem os futuros magistrados explicar-se dizendo até que os olhos vendados com que a justiça é normalmente representada deixou-os mais confortáveis para copiar, mas o que se terá passado foi algo de vergonhoso para os envolvidos.
    Os regimes fazem-se de rituais, a pedagogia de exemplo e a justiça de princípios.

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    1. Claro, Paulo, há sempre esse lado da insanável contradição estudante/exame. Porém, repito, o que a mim mais me marcou foi a desinformação. Religiosamente seguida por tudo e todos num rolo compressor que abafa a verdade verdadeira para impor a verdade condicionada. Sempre, em qualquer circunstância e seja ela qual for!

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  3. Confesso que também fui afetado pelas notícias e pelaforma como foram colocadas, porém o que hoje serve a uns como arma de arremesso, servirá amanhã o mesmo propósito a outros, mas a mim , cidad-ao deste cantinho á beira mar plantado e com brandura de costumes não encontro razão para que estes doutores tenham dado este exemplo ao país.
    Afinal se são tão bons porque é que copiaram?
    Que raio lhes passou pela cabeça?
    Ter que repetir o exame, é para mim uma prova dereconhecimento que lhes é feito daquilo que é e será o carácter dos mesmos.

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    1. O meu ponto é de facto esse das notícias e da forma que foram colocadas.
      Por que é que copiaram, o que lhes passou pela cabeça e como é que o problema será resolvido são questões legítimas para as quais não tenho resposta.
      Como também não tenho resposta para a bizarra e incompetente decisão da directora. Mas já terei resposta, por exemplo, para outra questão: quem é fez chegar isto à comunicação social? Foram os alunos, os auditores de justiça. Obviamente e pela simples razão de se sentirem prejudicados e de perceberem que se abriria uma janela para resolver o seu problema: o 10! E isto já responde à sua última observação: eles querem voltar a fazer o exame para limpar o 10 que lhes foi aplicado por retaliação. Que não terá sido por terem copiado, desconfio que por outras razões.

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