quarta-feira, 15 de junho de 2011

SINAIS

Por Eduardo Louro


 


Pedro Passos Coelho não levanta o véu sobre a constituição do governo – volto a tirar-lhe o chapéu pela forma como soube conduzir todo este processo, e levanto-o tão mais alto quanto sei que também lá está Paulo Portas – mas vai-se preocupando em deixar alguns sinais.


São sinais essencialmente destinados ao exterior, o que se compreende. Privilegiou um jornal de referência - o Financial Times – concentrando a comunicação em duas notícias, ambas centradas na questão financeira e, dentro dela, na independência. O objectivo era, claramente, passar uma mensagem de empenhamento no rigor e na independência do controlo das contas públicas, que é como quem diz na implementação das medidas do memorando da troika. E as duas notícias são (i) que o ministro das finanças é um independente e (ii) que vai criar a tal entidade de controlo e monitorização das contas constituída por independentes, incluindo dois estrangeiros!


Sobre a primeira tenho algumas dúvidas que um ministro das finanças independente seja, apenas e só por isso, uma grande notícia. Mais importante que ser independente é que tenha grande peso político, para além, evidentemente, de competência específica. O ministro das finanças tem que ser uma voz respeitada e incontestada, e isso só está ao alcance de pessoas com, mais que grande prestígio, grande peso político específico. Que, normalmente, não se encontra por aí em independentes. Provavelmente olhamos à volta e apenas encontramos Eduardo Catroga, que não é tão independente quanto isso!


Acredito que a segunda seja uma boa notícia para o exterior, e que a integração de personalidades estrangeiras lhes tenha soado a música. A mim, como de resto já aqui manifestei, parece-me uma coisa meia disparatada. Porque torna-se difícil entender que, quando é necessário reduzir o Estado, extinguir institutos e organismos públicos, a primeira notícia seja a criação de mais um organismo. Mas também porque é difícil de entender que um governo que se prepara para tomar posse esteja logo à partida a deixar a mensagem que, em contas, é de tanta confiança como o anterior. Que esteja a desconfiar dele próprio não é seguramente o melhor dos sinais. E, finalmente, porque também não se entende a necessidade de uma entidade de controlo e monitorização das contas – com estrangeiros e tudo – quando a própria troika o fará. E cá estará a fazê-lo trimestralmente. A não ser que se esteja a destinar a esse órgão o papel de interlocutor da troika: o que seria a todos os títulos lamentável, porque isso terá que ser função inalienável do ministério das finanças!


Podem ter sido sinais importantes, do ponto de vista de comunicação, em particular para o exterior. Mas para nós, que nos preocupamos com o que é e não com o que parece que é, não são sinais positivos.


Já é um sinal positivo perceber, como hoje já percebemos, a solução do problema chamado Fernando Nobre, ontem aqui trazido. A solução de insistir na sua candidatura à presidência da Assembleia, mesmo contra o parceiro de coligação, é um sinal de que Pedro Passos Coelho é cumpridor. Que é homem de palavra, o que é sempre um sinal positivo, tão mais positivo quanto maiores forem os riscos que corre. E se são grandes os riscos que vai correr… Mas Fernando Nobre, como referi no texto anterior, não lhe deixou escapatória!


E é mais um sinal positivo que seja já hoje claro que está completamente fora de causa a solução manhosa de o integrar no governo.


 


 

 

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