quarta-feira, 8 de junho de 2011

VOTAMOS. E AGORA?

Por Clarisse Louro *


 O país votou e votou pela mudança. Esperemos agora que mude mesmo, que a mudança venha por aí.


O PSD ganhou as eleições, ganhou bem e por números que as sondagens não deixavam antever. O CDS cresceu, não cresceu tão bem quanto tão bem ganhou o que sabe vir a ser o seu parceiro de coligação, mas cresceu. Pela primeira vez cresceu em simultâneo com o PSD, quebrando-se uma regra do nosso sistema político: com o PSD em crescimento o CDS cai, e vice-versa!


A quebra desta regra é a primeira responsável por outra grande novidade, esta sim, bem relevante: uma maioria de direita (chamemos-lhe assim, porque é assim o entendimento geral) a coincidir com um presidente de direita. É um velho sonho da direita portuguesa, enunciado há mais de 30 anos por Sá Carneiro e perseguido durante décadas: uma maioria, um governo e um presidente!


Rompeu-se o dogma de que a esquerda é maioritária na sociedade portuguesa e, mais relevante do que isso, mas também talvez mais surpreendente, reforçou-se o peso dos partidos do regime ou, como Paulo Portas institucionalizou, dos partidos do arco do governo.


Estas são as principais conclusões que os resultados eleitorais projectam, e que gravitam à volta dos vencedores – em eleições há sempre vencedores e perdedores, embora muitas vezes até pareça que não, que ninguém perde – o PSD em primeiríssimo lugar e o CDS num lugar, apesar de tudo, mais modesto do que esperaria e que as sondagens lhe prometiam. Mas há, pelo menos, mais uma conclusão relevante e que gravita em torno de um outro vencedor - que não disputou estas eleições mas que ganhou mais do que todos os que as disputaram: o presidente Cavaco Silva. A mudança que os resultados eleitorais provocaram veio legitimar a sua decisão de dissolver a Assembleia da República. A não ter sido assim sobreviria uma autêntica montanha de problemas que, em cima dos que já temos que enfrentar, tornariam a nossa vida num inferno bem maior do que este que está já aqui à nossa espera.


Então e agora?


Agora vão começar as nossas dificuldades a sério. Agora, que acabou esta festa que já dura há dois meses durante a qual ninguém esteve interessado em falar dos problemas, vamos todos cair na real, como dizem os nossos irmãos brasileiros. O novo governo quando, mais três meses depois da demissão de Sócrates (!!!), acabar de tomar posse, não vai ter mais que, como dizia o libertado ministro Teixeira dos Santos em Nova Iorque, três prioridades: cumprir o programa da ajuda externa, cumprir o programa da ajuda externa e cumprir o programa da ajuda externa. Nem, voltando a referir o enigmático ministro das finanças ainda a partir do lado de lá do Atlântico, terá tempo para se sentar!


Por ironia do destino poderá estar nesta obsessão pelo cumprimento deste programa – obsessão incontornável porque, trimestralmente, eles estão aí para conferir - a chave do ciclo de mudança que se abriu com estas eleições. É que se os resultados permitem a constituição de um governo coerente e com suficiente base parlamentar de apoio, também promoveram um novo ciclo no partido que suportava o governo, com o abandono do líder que, como era óbvio para toda a gente, era um factor de estrangulamento. Fazia parte do problema sem que pudesse ser parte da solução.


Quero acreditar que entramos num ciclo de mudança: a começar com um governo que, não tendo tempo para outra coisa que governar, possa mesmo governar. Mesmo que com um programa imposto de fora mas que, por muito estranho que possa parecer, encontrou eco em 80% dos portugueses que votaram. E este amplo consenso representado na nova Assembleia da República tem, agora sem Sócrates, melhores condições de se materializar.


E esperemos que estejamos conversados de boys! Já chega, e o país já não chega para mais!


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

2 comentários:

  1. Porque não tenho página no FB, nem pretendo vir a ter, comento aqui o comentário do Nelson Gusmão lá feito a este texto.
    Contestava que se assumisse a existência de uma maioria de direita classificando-a, se bem entendi, de meramente circunstancial. Poderá ser circunstancial, não o discuto, mas existe. Não deixa de existir por ser circunstancial. Acontece que a maioria a que o texto se refere, o tal sonho de Sá Carneiro agora concretizado, é a maioria parlamentar. E aí, então, a circunstância nem é bem circunstancial: é uma circunstância de 4 anos!

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  2. Porque não tenho página no FB, nem pretendo vir a ter, comento aqui o comentário ao meu caro amigo e companheiro rotary Manuel Gomes, também lá publicado a propósito deste texto.
    O comentário é bem longo pelo que tentarei ser selectiva na minha réplica:
    Começo por não contestar todos os considerando à volta da figura de Paulo Portas e do seu contexto familiar. Parece-me irrelevante. Já o mesmo não sucede no que respeita à probabilidade de encarnar o escorpião às costas da rã. Mais que um julgamento de carácter entendo-o como julgamento político, de personalidade política e isso, que não contesto, acho relevante.
    Parece-me evidente que o CDS pertence ao arco do poder – a expressão é do próprio Paulo Portas - mas não me parece relevante discutir se a expressão é ou não a mais apropriada, porque a ideia que está no texto é a do reforço dos partidos do regime. Isto sim, bem relevante quando se poderia supor que o regime seria posto em causa por tanto desvario.
    E, já agora, apenas mais algumas precisões. No texto não se diz que o presidente Cavaco demitiu o governo. Diz-se que, em resposta à demissão do governo, dissolveu a Assembleia, o que, sendo bem diferente, inviabiliza a conclusão da comparação da “coragem” de uns e de outros. Como também não se lê no texto o adjectivo “execrável” aplicado a Sócrates ou a qualquer outro. Pura e simplesmente não existe, como não é conclusão do texto mas apenas sua, meu amigo (comum aliás ao establishment do Partido Socialista), que o problema do país seja o ódio a um governante. Não, o problema do país é e foi o governante – lui même!
    A última precisão é a que considero mais relevante. Não há “meu partido” porque eu não pertenço a qualquer partido. Não pertenço, nunca pertenci nem está nos meus planos vir a pertencer. Gozo, nessa matéria como em todas as outras, de inteira liberdade! O que não significa que tenha alguma coisa contra quem tem filiação partidária nem me impede de participar e colaborar na acção política sempre que o entenda e para isso seja convidada. E sou-o com muita frequência: se entendo que posso ser útil aceito, se entendo que não o posso ou que nada acrescento declino.
    Em jeito de nota final devo dizer que vi o “Bem-vindo Mr Chance” e que a comparação de Cavaco com o jardineiro que chega a conselheiro presidencial através de uma notoriedade construída a partir de metaforismo da limitada realidade das orquídeas do seu jardim, é um “déja vu”. Como o texto, afinal!
    Um abraçol. E até um destes dias!

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