sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Futebolês #89 CANTERA

Por Eduardo Louro


  


Cantera é uma incursão do futebolês pela língua de Cervantes. Em português corresponderá a centro de formação: de jogadores de futebol, no caso. Ou, em futebolês português, a escolas de formação, agora pomposamente chamadas de academias, designação de que o Sporting se apropriou, como que reclamando a primazia da sua escola no panorama da formação de jogadores de futebol em Portugal. Ou fazendo igualmente jus ao pioneirismo das suas infra-estruturas desportivas, a que chamou justamente Academia de Alcochete.


É provavelmente por toda esta amálgama de conceitos e de sensibilidades que o futebolês acabou por privilegiar a expressão castelhana. É que cantera é muito mais que tudo isso, é uma maternidade de talentos para a prática do futebol. É um forno donde sucessivamente saem fornadas, umas atrás das outras, de jogadores talentosos, identificados com uma determinada cultura e com certa filosofia de jogo.


Era isto que nós gostaríamos que fossem as nossas escolas - chamem-lhes academias, campus ou lá o que quiserem – mas não são. E é porque o não são que também o futebolês preferiu consagrar a cantera.


Antigamente, antes destas expressões surgirem, referíamo-nos aos jogadores formados no clube de uma forma muito simples, que vi recordada um destes dias por um dos nossos habituais leitores, o Adérito Martins: eram os que vinham dos juniores!


Se existem escolas de formação de jogadores um pouco por todo o mundo – de que o Sporting, em Portugal, e o Auxerre, em França, são dois bons exemplos – a verdade é que, canteras a sério, encontramos em Amsterdão, no Ajax, apesar de aparentar já um certo declínio, e em Barcelona, aí sim, em todo o seu esplendor. Basta olhar para a constituição da equipa que vem encantando o mundo de há quatro anos a esta parte, e reparar que lá estão sempre nove ou dez jogadores formados na suas escolas, com a sua cultura e a sua filosofia. Uma cultura e uma filosofia que transportam Messi para patamares extraterrestres, que não confirma ao serviço da seleção argentina, e que alimentam a fantasia da eterna comparação com Cristiano Ronaldo.


Em Portugal abandonou-se a formação, com os clubes a preferirem ir procurar jogadores – uns já formados, outros nem por isso, por esse mundo fora. Agora até já o Sporting! Até as equipas de juniores estão já cheias de jogadores estrangeiros. Daí a enorme bofetada de luva branca que a seleção nacional de sub 20, que discute hoje com o Brasil o título de campeã mundial. Vença ou não esta final já provou aos principais clubes nacionais que estão errados quando todos os anos lhes tapam o acesso às suas equipas! Provavelmente ninguém aprenderá nada com esta brilhante demonstração de capacidade destes jovens e tudo ficará na mesma!


Como na mesma parece estar o campeonato nacional que agora arrancou. Com o Benfica e o Sporting a falharem o arranque – desta feita com o Sporting a ser a vítima da arbitragem – e o Porto, tal como no ano passado, a ganhar com um penalti daqueles que só são assinalados a seu favor. Dizem as estatísticas que, nesta primeira jornada, foram cobrados 96 pontapés de canto e, apenas num único, o defesa agarrou o avançado! E, para que tudo continue na mesma, o Rolando mantém-se como o único defesa com autorização para jogar a bola com a mão na sua grande área!


Para que nem tudo fique na mesma Falcao deixou o Porto, depois de ter renovado o contrato e subido a cláusula de rescisão para 45 milhões de euros. Como de lá ninguém sai sem que seja batido o valor da dita cláusula, lá foi ele para o Atlético de Madrid precisamente por esse valor: o Ruben Micael acompanhou-o como dama de honor, acreditem!


Mas esses já não são milhões da treta! Ou serão? É que o Atlético de Madrid, como ainda há dias dizia Pinto da Costa, não tinha dinheiro para comprar o Falcao e os outros, os que tinham, se o quisessem já se teriam manifestado… Afinal o homem não é infalível! E há mesmo milhões da treta…


 

4 comentários:

  1. Olá,

    O mundo é mesmo pequeno. Achei graça à referência que fez ao Auxerre. Cidadezinha que conheço bem e único ponto urbano num raio de mais de 40 Km.

    Se Larousse forjou o seu dicionário nessas terras da Borgonha é porque se deve ter aborrecido de ver os javalis passarem... Lol

    É verdade que o Auxerre teve uma grande escola de futebol que era sobretudo alimentada por antigos internacionais Polacos que enquadravam os jovens. Existiu uma filiação importante entre a emigração Polaca que, no após 2ª guerra, trabalhou nas vinhas e os nternacionais Polacos.Estes em fim de carreira sentiam-se em casa. Foram estes que muito contribuiram para os sucessos do Auxerre, dando-lhe uma memória.

    Nuno



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    1. Olá Nuno,
      Obrigado pela informação. Desconhecia em completo essa ligação polaca, tinha mesmo a ideia que a escola do Auxerre se deveria a um trabalho de organização de (vou escrever mal o nome, mas não tenho tempo de confirmar agora, por isso desculpe-me) Guy Leroux que esteve toda uma vida ao serviço desse clube.

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    2. Olá,

      É Guy Roux. Mas não é uma"faute" porque não impede a comuninação. Apenas "une erreur".

      Somos humanos, né !

      Não deixa de ser curioso e na altura já proibido que durante o intervalo, na época do frio, fosse servido vinho quente... com pimenta e limão. O próprio Guy Roux é também ele um homem com uma vivência ligada ao trabalho elaborado nas vinhas.

      Nuno

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    3. Obrigado Nuno. É fantástico o que tem sempre para nos contar!
      Ma erreur: não sei por que fui arranjar um Le para Monsieur Roux!

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