Por Eduardo Louro
Está mais viva do que nunca a discussão sobre a compatibilidade entre o capitalismo e a democracia. Se até há pouco esta era uma discussão particular de alguma esquerda, hoje atravessa claramente vários quadrantes ideológicos.
Uma discussão interessante - sem dúvida – que gostaria de ver mais debatida!
Pouca gente põe hoje em causa que o capitalismo tenha sido o sistema económico mais capaz de gerar desenvolvimento, progresso e bem-estar social. Não foi apenas a falência do sistema das chamadas economias planificadas da esfera da antiga União Soviética nem, noutra medida, a do sistema chinês, que se encarregou de esvaziar a legião de opositores convictos do capitalismo. Mesmo depois de tecnicamente falido o modelo económico soviético conseguiu segurar os seus adeptos enquanto subsistiu o modelo político. É a queda do Muro de Berlim que acaba por soterrar a maior parte dos últimos resistentes anti-capitalistas!
Mas é também este o acontecimento histórico que mais concorreu para que o mundo e o capitalismo sejam hoje o que são. Para que tenham chegado até aqui, ao ponto em que esta discussão faz todo o sentido e à qual chegarão muitos dos que tinham ficado soterrados nos escombros do Muro.
A(s) democracia(s) e o capitalismo nasceram e desenvolveram-se a par e passo. Factores demográficos e económicos – mas também a necessidade de gerar sólidos e verdadeiros argumentos de combate ao regime inimigo, de criar as hoje chamadas vantagens comparativas – reforçaram-nos a ambos, especialmente com o desenvolvimento do welfare state. O hoje tão atacado Estado Social!
Não é mera coincidência que este capitalismo actual, nascido da queda do muro e da globalização, seja posto em causa e acusado de inimigo da democracia quando, precisamente, põe em causa e começa a destruir o Estado Social.
Quando ouvimos as pessoas queixarem-se de que isto é uma ditadura ou que a democracia está doente, é disto que se está a falar. Quando ouvimos, no discurso das elites, dizer-se que falta política ou que é necessário o regresso da política, também não é de nada de muito diferente que se está a falar. É a democracia posta em causa, seja quando se corta nos benefícios sociais ligados ao bem-estar das populações, seja quando a realidade impõe decisões à margem do processo e da discussão política!
Repare-se no recente caso do referendo grego – e ignorem-se, embora se não deva, as circunstâncias em que foi decidido e anunciado – e veja-se como não houve política nem democracia a funcionar. Apenas a realidade dos factos a obrigar o primeiro-ministro grego a meter a viola no saco e até a demitir-se.
Evidentemente que a realidade, a nua e crua realidade da globalização, ganha a força de um tsunami que tudo leva à frente, onde o capitalismo se sente como peixe na água. Sem pátria, o capitalismo desloca-se sem qualquer tipo de preocupações com a democracia e exclusivamente focado no mercado.
Às velhas democracias ocidentais, e em particular à Europa, exige-se que trate de acelerar e explicar muito bem essa tese do regresso à política. Que não pode querer dizer outra coisa que não o regresso de gente capaz, competente e independente dos poderes económico e financeiro! Gente séria e de vistas largas que regenere a democracia. Porque, por muito emirjam novas e grandes economias, mesmo estando a China a sentar-se na cadeira da maior potência mundial, o mercado das democracias ocidentais ainda continua a ser o mais apetecível. Mas, acima de tudo, porque este modo de vida agora posto em causa continua a constituir o farol iluminado para onde o resto do mundo dirige os olhos.
O problema é encontrar mestres para esta obra!
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