Convidada: Clarisse Louro *
O país entrou numa espiral de degradação de que não há memória. Tenho sérias dúvidas que encontremos na nossa História contemporânea outro momento onde tanto se tenha atentado contra o direito à dignidade.
Sim, sou do tempo da ditadura, vivi neste país amordaçado até à minha juventude… Sei do que então se passava, mas sei que, pelas condições da sociedade portuguesa nesses tempos – analfabetismo, acesso à cultura, níveis de consumo, etc. – a mancha social atingida pelos atentados de então era bem menos expressiva que a actual.
A coberto daquela ideia absurda de que andamos para aqui durante anos numa festança completa - a viver acima das nossas possibilidades, como os ideólogos do regime se encarregaram de propagandear, repetindo-o as vezes necessárias para tornar essa falácia numa verdade absoluta e indiscutível – criou-se na sociedade portuguesa um sentimento de aceitação da punição. Criou-se uma espécie de pecado original que, em vez de remível pelo baptismo, é expiado pelo sacrifício ilimitado e pela flagelação, que os mesmos ideólogos trataram logo de preparar. Sem a mínima preocupação com a dignidade de cada um!
As sucessivas revisões da legislação laboral – que, dizem-nos de Bruxelas, ainda não são suficientes – os sucessivos cortes nos salários da função pública, o crescimento acelerado do desemprego e a chegada permanente de milhares de jovens às portas fechadas do mercado de trabalho, quebraram qualquer sombra de equilíbrio entre capital e trabalho. Sem mínimas preocupações de dignidade!
Com o desemprego a galope, e já perto dos 40% nos jovens, o regime encontra duas soluções: a emigração – com indicação expressa do caminho, sem percepção do autêntico crime de desperdício que isso representa – e o empreendedorismo, a mais recente descoberta para afrontar a inteligência das pessoas. E nisso também a sua dignidade: como se a economia estivesse para isso, como se as oportunidades pairassem por aí, como se empreender – e seja lá isso o que for - seja coisa que dependa apenas da necessidade de cada um.
É por tudo isto que centros de saúde de Lisboa e Vale do Tejo contrataram enfermeiros a menos de quatro euros à hora. Profissionais altamente qualificados, formados em quatro anos de ensino superior - onde só entram os melhores, basta ver as respectivas notas de acesso - num dos cursos que mais recursos exige, que mais caro sai aos contribuintes. E que constituem o principal pilar dos serviços de saúde, porque são eles os únicos profissionais que, em saúde, estão presentes em todos os momentos. Isto não ofende apenas a dignidade dos enfermeiros e de quem os forma. Ofende a de todos: cidadãos e contribuintes!
Mas é o Estado que está a cometer este atentado? Não. Mas é o Estado que o promove!
Porque não contrata os quadros de que necessita, e prefere, perversamente, contratar serviços. Empreendedores dos sete costados apressam-se a concorrer, recrutando enfermeiros que não têm outra alternativa de mercado de trabalho, ao preço e como se tratasse de serviços de limpeza. Um “rentável proxenetismo de enfermagem”, como dizia Ricardo Araújo Pereira, na Visão.
É deste empreendedorismo que provavelmente se fala: sem risco e cheio de oportunidades. Do proxenetismo, que bem sabemos como lida com a dignidade!
* Publicado hoje no Jornal de Leiria
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