Convidado: Luís Fialho de Almeida
Em tempos de crise há mecanismos de autodefesa que se intensificam, particularmente nas comunidades rurais. Nestas, apesar da construção muito dispersa, é mais fácil a entreajuda entre pessoas muito afastadas no espaço, do que entre vizinhos do mesmo andar numa grande cidade.
As relações mercantis processam-se necessariamente, mas recorrendo menos ao dinheiro e mais à troca de bens e serviços. Podemos facultar conhecimento, informação, equipamentos e produtos da nossa actividade e, em troca, receber algo de que precisamos.
De um casal de desempregados, com uma filha divorciada e duas netas a cargo, recebo algum trabalho e produtos da horta, a troco de produtos e sub-produtos da minha actividade. A um casal de reformados com pensões exíguas, empresto equipamentos e recebo lenha, o que me ajuda a reduzir a factura da energia a pagar ao estado chinês pela via do Catroga e do Mexia. Outros e diversos exemplos poderiam aqui ser enunciados.
Gostaria de negociar com Victor Gaspar, em géneros, o dinheiro que pago de impostos. Mas a gente que nos desgoverna, para além de inacessível para tratar desta matéria, pratica um mercantilismo desequilibrado no rácio, do tipo – um porco em troca de um chouriço – característica do liberalismo desenfreado em que um dos lados é espoliado a favor do outro, agravando o fosso entre os muitos ricos e os muito pobres. A promiscuidade entre a economia e a política leva a que o dinheiro domine o poder.
Por isso, vou insistir nas trocas ao nível das comunidades mais modestas e carenciadas que, por norma, são mais generosas e justas. Confesso que ainda não descobri a necessidade de bens e serviços do senhor que vende as sardinhas, produto a tornar-se precioso. Com as medidas de agravamento da austeridade, agora anunciadas pelo governo, receio que voltem os tempos difíceis de má memória, que os mais velhos ainda não esqueceram – uma sardinha para três bocas esfomeadas – a não ser que os indignados percam o medo, mas não a coragem, porque o caviar não falta na mesa dos espoliadores.
Não há nobreza nem liberdade em estado de fome e pobreza. Nos tempos da sardinha repartida, o bom povo – pobre, às vezes mesmo miserável – emigrava em massa na procura da dignidade perdida, situação que o actual governo volta a recomendar. O Dia de Portugal e das Comunidades serve, também, para redimir alguma culpa, enaltecendo o heroísmo de quem parte, particularmente se as remessas financeiras vierem alimentar a avidez das elites.
Irmãos humanos tão desamparados
A luz que nos guiava já não guia
Somos pessoas – dizeis – e não mercados
Este por certo não é tempo de poesia
Gostaria de vos dar outros recados
Com pão e vinho e menos mais-valia.
Manuel Alegre, ‘Balada dos Aflitos’ in “Nada Está Escrito”
Sem comentários:
Enviar um comentário