quinta-feira, 14 de março de 2013

EXPLIQUEM LÁ ISTO AO SENHOR PRIMEIRO-MINISTRO

 Convidada: Clarisse Louro *


 


O país saiu à rua, e o 2 de Março junta-se a outras datas da nossa História recente!


Não faço ideia das consequências imediatas, se o governo chegará ao fim do mandato ou não, nem sequer se quem cá manda o irá continuar a fazer exactamente na mesma. Ou se outras se seguirão. Ou se, repetindo-se, mantêm o registo cívico, cordato … português.


Mas parece-me que o primeiro-ministro deveria ser levado a uma profunda reflexão sobre esta jornada de protesto!


A entourage de Pedro Passos Coelho e a vasta legião de comentadores e fazedores de opinião arregimentados tipo corte, em vez de terem andado por aí que nem baratas tontas a discutir áreas e número de pessoas por metro quadrado, a tirar e publicar fotografias, umas mais manipuladas que outras, deveriam perceber, e fazê-lo perceber, duas coisas: que não importa se estiveram na rua milhão e meio de pessoas ou outro número qualquer, porque esteve muita, muita gente; e que grande parte dela é gente que votou nele há menos de dois anos!


Gente que votou nele e não no inimputável Vítor Gaspar. Gente que acreditou e se revia no seu discurso, que resgatava “o país a pão e água”, que defendia a responsabilização civil e criminal de quem deixasse resvalar a despesa. Que garantia sanear o país sem mais impostos, nem reduzir salários, que recusava a chantagem emocional, que garantia que a austeridade não poderia traduzir-se em aumentos de impostos e cortes de rendimento. Que as gorduras do Estado… Que os institutos e as fundações… Que os amigos não esperassem… Que a ética... Ou que o país não poderia aceitar um primeiro-ministro que mente…   


Fazê-lo perceber isto é entregar-lhe a chave do problema. Insistir em ignorar a realidade, escondê-la, é cavar uma trincheira e metê-lo lá dentro à espera de algum milagre.


Parece-me claramente que a saída para este beco onde o governo se meteu, e para o buraco em que deixou cair o país, está em Pedro Passos Coelho. Do Presidente da República – em hibernação permanente, donde só sai, depois de muito picado, para dizer que é e deve ser esse o seu papel, sempre sem que nada tenha a ver com isto – já ninguém, na posse da suas faculdades mais básicas, espera o que quer que seja. Limitar-se-á a assistir à degradação da situação política do país, até à rápida exaustão final. E depois virão eleições, antecipadas ou não.


Donde, a sair alguma solução governativa, será um governo chefiado por Seguro. Que não é apenas mais do mesmo. É mais do mesmo, mas quando do mesmo já não pode haver mais! 


Está nas mãos de Passos Coelho evitar esta tragédia!


Muito mais importante que perder tempo a fazer contas e a procurar graçolas sobre as manifestações seria pensar nisto. Mas, como se soube por estes dias, quando dez jornalistas transitam, por requisição, da Redacção do Diário de Notícias para o governo, todos distribuídos pelos gabinetes de Passos Coelho e de Miguel Relvas - um dos quais se prestou àquela tresloucada brincadeira, que passou impune, da carta da Srª Christine Lagarde de resposta a Seguro - as expectativas têm que ser baixas.


É que, os que lá estão, por lá querem continuar. E os que lá não estão, acham que é assim que lá chegam. É também disto que se fazem as misérias deste país!


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

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