Convidado: Luís Fialho de Almeida
Esclareço que, nas minhas relações pessoais, tenho a grata simpatia por alguns comunistas que o são de espirito, vivência e entrega ao serviço da comunidade que integram. Quando no exercício de cargos públicos a dedicação é total, com desapego de privilégios e mordomias. Poderia citar nomes, particularmente no poder autárquico.
O título é uma evocação do passado, para perceber melhor o presente. É recuar aos anos da ditadura do Estado Novo, quando se vivia o clima de repulsa doentia pelo comunismo. Este era o terror dos terrores, a principal ameaça à estabilidade política, social e religiosa da altura.
Das minhas memórias e notas de campo, recordo o período do meado do século passado, quando crescia num meio rural desprovido de infraestruturas públicas. Qualquer benefício para a comunidade local era mendigado junto das autoridades concelhias, que apenas libertavam escassas migalhas, normalmente em géneros ou serviços e nunca em dinheiro. Na falta da estrada, como meio necessário à circulação de pessoas e bens, da escola e da igreja, como símbolos da pátria e meios necessários na instrução e educação moral da população, era esta que se mobilizava porque nada lhes era oferecido. Uns davam a mão-de-obra, outros colaboravam na obtenção dos materiais e, por fim, a Câmara Municipal enviava alguns meios complementares.
Recordo, também, o dia que minha mãe - na sequência de diligências a favor da comunidade da aldeia - chegou a casa perturbada depois de uma conversa com padre da freguesia, que lhe chamou “perigosa comunista”, dadas as iniciativas por ela tomadas e pelo seu poder de mobilizar as pessoas. O seu comportamento abalava a estabilidade do caciquismo local, mais feroz que o caciquismo do poder central, o que não a impediu de escrever a Salazar e ao Cardeal Patriarca Cerejeira, os quais, através das respectivas hierarquias, enviaram, respectivamente, materiais para obras e um projecto para uma igreja.
Esta lembrança vem a propósito de mais uma frenética campanha eleitoral para as autárquicas, em tempo bem diverso de outrora, em que se promete muito e se faz pouco, contando sempre com acesso fácil à mesa do orçamento e com a gestão criativa dos recursos públicos de forma irresponsável ou mesmo dolosa.
Como o acesso ao dinheiro fácil amolece virtudes, alguns autarcas - viciados em obras de fachada e sem capacidade de iniciativa para outras realizações, mesmo de natureza imaterial, cultural e formativa - ficam-se pelas reparações de estradas ou pelo arranjo de pequenos espaços ajardinados. Cuidam, antes, da outra estética do poder, materializada em outdoors com candidatos de sorriso renovado, sem gravata, e mangas arregaçadas, preparados para a laboriosa e nobre tarefa de serviço público. Um dos candidatos à presidência do meu município e actual deputado da Assembleia da Republica, arregaçou as mangas mas cruzou os braços - louvo a franqueza. A estética do poder não é indiferente ao eleitorado. Veja-se na Alemanha, a atenção prestada às mãos de Merkel e ao dedo de Peer Steinbruk.
No actual quadro de austeridade com autarquias exauridas de recursos financeiros, mas não de dívidas e corrupção, melhor seria que houvesse os “perigosos comunistas” com a capacidade de agitar as comunidades locais, mobilizando pessoas, vontades, competências e recursos para benefício público.
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