quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Teorias do empobrecimento

 Convidada: Clarisse Louro *


 


Começamos por ouvir dizer que, com a globalização, iríamos ter que nos habituar a empobrecer um bocadinho. A sociedade de bem-estar do norte teria que abrir mão de um bocadinho desse conforto, para retirar da miséria e da fome a maior parte da humanidade que ainda vive em condições infra-humanas.


Quando as empresas, depois da queda do muro de Berlim, agora a fazer 24 anos, começaram a deslocar as indústrias para a Ásia sabíamos que iam à procura de mão-de-obra barata, de mais baixos custos de produção. Mas acreditávamos também que esse era um fenómeno que viria a melhorar as condições de vida a largos milhões de pessoas, para quem aqueles salários, para nós miseráveis, eram a chave que lhes abria a porta, se não do desenvolvimento, pelo menos de qualquer coisa melhor.


A adesão da China à Organização Mundial de Comércio, apesar das muitas voltas trocadas, tem ainda um pouco desse princípio, até porque ninguém ignorava que, nas suas condições económicas, políticas e sociais, a China era um concorrente forte, mas também fortemente desleal. A opinião pública ocidental estava disponível para perder alguma coisa para garantir o acesso a padrões mínimos de consumo a largas centenas de milhões de chineses…


Hoje olhamos para o mundo e conseguimos notar alguns desses efeitos. Quando há países emergentes com crescimentos anuais de dois dígitos alguma coisa por lá há-de ficar melhor, mesmo que, Brasil e China á parte, cada caso com a sua realidade e com os seus problemas, o balanço do desenvolvimento social não seja particularmente brilhante.


Também cá em Portugal, ao longo de todos estes anos de crise, fomo-nos habituando à ideia de que tínhamos que empobrecer. Esta teoria do empobrecimento era-nos sistematicamente martelada de forma a entrar pelas nossas cabeças dentro, fosse lá da forma que fosse.


Enquanto na teoria anterior era deixado perceber que havia ali vasos comunicantes, nós empobreceríamos para que outros pudessem ter qualquer coisinha, nesta não tínhamos nada assim de tão claro. Temos de empobrecer, mas para onde é que vai? Quem é que ganha com isso?


Aqui não havia vasos comunicantes, tínhamos de empobrecer pela simples razão de que tínhamos vivido acima das nossas possibilidades. Esta não era uma teoria, era um axioma. E foi como tal que fez carreira ao longo destes anos - o axioma do empobrecimento!


Começamos agora a perceber que não seria bem assim. Começamos a perceber que, quando nós empobrecemos, o país empobrece também. Mas que não empobrecemos todos: um Relatório da UBS – o Relatório de Ultra-Riqueza no Mundo – diz que em 2013 há em Portugal mais 85 multimilionários, passando para 870, cujas fortunas cresceram mais de 11%. Mesmo assim menos que na Grécia onde, pasme-se, a fortuna dos mais ricos cresceu 20%! 


E começamos a perceber que quanto mais pobres estão os países do sul da União mais ricos estão os do Norte. E que a Alemanha atingiu excedentes comercias inaceitáveis. Tão inaceitáveis que já nem Durão Barroso consegue ignorar!


O que sai de um lado entra noutro qualquer. Quando isso é rendimento, chama-se distribuição e é o maior instrumento político para a construção de sociedades justas, desenvolvidas, estruturadas e equilibradas.


 E a distribuição de rendimento não está a correr da melhor maneira. O mundo está cada vez mais desigual!


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

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