quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A barbárie do vale tudo

 Convidada: Clarisse Louro *


 


Se vivêssemos num país normal, com o mínimo de sentido crítico e de mobilização cívica, que não estivesse completamente sedado, na passada sexta-feira teria acontecido na Assembleia da República um dos maiores golpes nesta democracia de faz de conta que nos vai corroendo.


A aprovação de um referendo sobre a adopção e a co-adopção por casais do mesmo sexo, por 93 deputados do PSD, é um golpe baixo, uma canalhice e um insulto à democracia.


Porque pretende levar a referendo aquilo que há pouco mais de seis meses a Assembleia da República decidiu, para cancelar o respectivo processo legislativo. Porque fá-lo atrás de um escudo: a JSD não é mais que um escudo, porque a proposta foi aprovada pela Comissão Política do PSD, e o próprio Passos Coelho teve já que vir dar-lhe cobertura. Porque, numa matéria de consciência, impõe a disciplina de voto, obrigando deputados que haviam votado a favor da lei a votar agora nesta trapaça, e a declarações de voto indignas e vergonhosas. Haverá maior atentado à dignidade, maior achincalhamento, que um deputado dizer, justamente em matéria de consciência, que foi obrigado a votar contra a sua própria consciência? E finalmente, no que ao domínio processual respeita, pela hipocrisia que veio da bancada do outro parceiro de maioria. Que, manifestando-se contra a iniciativa, mais por razões de oportunidade política e financeira do que outras, viria pela abstenção, seguramente que imposta pela direcção do grupo parlamentar, a viabilizá-la.


Se no plano processual e no dos princípios e valores políticos a afronta é grande, não é menor no dos valores da emancipação cívica e civilizacionais.


Porque não se sujeita a referendo o exercício de direitos humanos. Porque, ao contrário do que o primeiro-ministro teve o desplante de afirmar, não é democracia referendar direitos de minorias. É por isso que existe a democracia representativa, e é por isso que as grandes conquistas da civilização que decorrem dos direitos das minorias andam à frente da sociedade.


Se não fosse assim ainda hoje haveria escravatura, porque as sociedades continuariam esclavagistas. As mulheres ainda não votariam. O divórcio seria proibido. A igualdade de género não passaria de uma miragem…


Escrevi aqui em Maio, nesta mesma minha coluna, aquando da aprovação da lei, que não iria então manifestar a minha opinião sobre a questão em si. Não sei se alguém estará recordado, mas na ocasião pretendi reflectir sobre a forma pacífica como a questão tinha passado na opinião pública.


Hoje, não. Vou deixar claro que acho que é o interesse supremo da criança que tem sempre de prevalecer. Que acho que uma família é uma família, independentemente da orientação sexual dos seus membros. Que acho que um homossexual não tem menos capacidade de amar e cuidar. Que ser pai ou ser mãe vai além do acto de procriar. E que, em particular a co-adopção, é uma questão básica e fundamental de direito!


A esta gente que tomou conta do poder não basta empobrecermo-nos da forma brutal que tem feito. Não basta privatizar, e depois fazer a lei sobre o que é estratégico para o país, quando já nada mais há para privatizar. Não basta cortar na educação e na saúde públicas, para entregar depois a privados, com negociatas e escândalos sempre impunes. Como alguma comunicação social algumas vezes ousa denunciar, para logo ser abafado. Como sucedeu com uma estação de televisão, na denúncia de práticas e ligações de um grupo privado na Educação. Ou com outra, que denunciou os escândalos da facturação à ADSE - que já começamos a pagar, com o agravamento das nossas contribuições, que nos reduzem ainda mais os sucessivamente reduzidos salários – e outras práticas e ligações perigosas do grupo, que entretanto inundava jornais e televisões com publicidade…Não basta cortar ordenados e pensões, enquanto entrega por ajuste directo negócios a uns amigos, e encaminha outros para os melhores lugares internacionais.


Não lhes basta tudo isto. Querem ainda obrigar-nos ao retrocesso civilizacional e à barbárie do vale tudo!


 


 


* Publicado hoje no Jornal de Leiria

17 comentários:

  1. A democracia é o todo23 de janeiro de 2014 às 06:28

    meu caro desamigo, insulto é v/ pensar que uma muito pequena minoria pode impor o seu próprio interesse à outra grande, grande maioria. Quem teme o referendo é porque teme a vontade da maioria. Afinal quem manda numa democracia?

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    1. Esta de chamar às crianças uma pequena minoria não lembra a ninguém, porque o fulcral desta questão são mesmo elas...

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    2. Há três hipóteses: Ou não percebeu nada do que está escrito, ou estamos em profundo desacordo sobre o que é a democracia, ou ambas em simultâneo!
      Nenhuma delas é caso para sermos "desamigos"...

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    3. Nem mais. O fulcral é mesmo o que seja melhor para a criança.
      A pequena minoria é uma confusão sua qualquer...

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    4. Proponho que se referende o corte dos dedos das suas mãos para que não volte a escrever a barbaridade que escreveu. Afinal quem manda numa democacia?

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    5. É maquiavélico pensar que a democracia é o que você julga que é. Está muito equivocado.

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    6. Não caia em piadolas fáceis recorrendo ao meu nickname. O seu sugere-me que lhe peça para me dar o pé, tal o papaguear. Quanto a conceitos de democracia, quando pretende referendar um direito de uma minoria, estamos conversados. Referendam-se assuntos que interessam a toda uma comunidade. Não é o caso. Estamos perante o último dos preconceitos do século XX, tanto mais ignóbil quanto se esconde por detrás da falácia dos superiores interesses da criança.

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  2. Neste momento há muitos casais constituídos por um homem e uma mulher que esperam anos por adotar uma criança e não há para adoção. E as pessoas do mesmo sexo que são casadas vem de uma família de um pai e de uma mãe. A criança também tem direitos e um direito é o de ser adotada por um pai e uma mãe. Seria um retrocesso antropológico a criança ser adotada por duas pessoas do mesmo sexo.

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    1. É a sua opinião. Não me parece muito bem apresentada, mas nem por isso é menos respeitável.

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  3. Todas as opiniões serão respeitáveis e têm que ser ouvidas, no entanto, cumpre perguntar: Porque é que não seguimos as leis da natureza onde o macho e a fêmea fazem as crias e as criam?
    Como podemos obrigar uma criança e viver no meio de homossexuais? Uma criança é criada num ambiente onde vê dois homens ( ou duas mulheres) aos beijos e carícias enquanto cresce e se forma, não ficará com uma ideia diferente do mundo real?
    Se não devemos impôs a uma criança uma religião, por exemplo, porque é que devemos impor-lhe isto?
    Como é que essa ex-criança se sentirá um dia que seja adulta?
    Se houver mal feito, como será reparado?
    Portanto, nada de adopções por pessoas do mesmo sexo!

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    1. Creio que a resposta à sua primeira questão resolve todas outras. É que nem todos os machos e fêmeas que fazem crias as criam. Fazem-nas, mas não as criam...
      Voilá!

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    2. Porque é que não seguimos as leis da natureza? Acho bem. Legalize-se a poligamia que os cães e a maioria dos animais praticam, legalize-se o incesto, também praticado pela maioria dos animais na natureza.

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  4. Minha cara, para mim as liberdades individuais não se referendam e como tal partilho da mesma opinião. Infelizmente este é um assunto que traz ao de cima o que de mais sujo as pessoas têm dentro de si baixando o nível da argumentação ao nível da ignorância e da mediocridade (como se pode ver por essa net fora...). Por isso, fico-me por esta minha opinião, sem grandes considerandos.
    Bom fim de semana.

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  5. Os pais que abandonaram as crianças que estão para adoção eram heterossexuais. Há casais hétero que adotam crianças e as devolvem às instituições porque "não se adaptaram". Isto sim, é uma vergonha. Enquanto existir no mundo uma criança institucionalizada, nem faz sentido este tipo de discussão. E, infelizmente, há demasiadas crianças institucionalizadas!

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    1. Exactamente. Como respondi acima: Se todos os que fazem as crias as criassem esta questão nem sequer se colocava.

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