Por Eduardo Louro
Lembro-me do deslumbramento com que, em criança, ouvia os mais velhos narrarem episódios e histórias de vida de há (havia) vinte, trinta anos. O tempo é das coisas mais objectivas, mais facilmente medíveis e por isso das mais absolutas, mas a noção que dele temos é a coisa mais relativa que a vida tem.
Em criança sentimo-nos esmagados pelo tempo. Se temos seis ou sete anos, ouvir falar de vinte remete-nos para uma dimensão avassaladora do tempo. Depois, os anos vão passando e só começamos a dar conta disso quando as nossas próprias recordações começam a comportar essa dimensão do tempo. E quando percebemos que as décadas começam a encurtar de forma quase assustadora: se da primeira pouco damos conta, bem sabemos como a segunda nunca mais passa, parece ela que tem os esmagadores trinta ou quarenta anos do tempo das histórias que ouvíamos. Os vinte anos nunca mais vêm, mesmo com os dezoito a darem uma boa ajuda. A terceira já é bem mais curta, mas ainda dá - dava, já não sei se dá - para muita e muita coisa, e a terceira talvez esteja na medida. A quarta já tem bem menos de dez anos, e a partir daí os anos passam a meses...
Tudo isto me vem à cabeça neste dia em que me lembro que há cinquenta anos, em convalescença de uma intervenção cirúrgica à garganta, perdi o meu tio mais novo num estúpido - como todos - acidente de viação. Era o meu tio mais novo, e por isso o mais próximo de mim. Mas também o meu ídolo, o meu confidente, o meu amigo.
Fazia 26 anos nesse 26 de Agosto de 1965. Estava a meio da primeira década a sério, ainda sem tempo para perceber como é traiçoeiro o tempo.
Há cinquenta anos... Há cinquenta anos, ainda a meio das férias grandes, a mais de um mês de entrar para o mundo novo do liceu, morreu o meu tio Manel. Nem sequer fui ao seu funeral... Não que fosse criança - nesse tempo a morte não era escondida às crianças, mas também eu já não queria ser criança. Foi a garganta que não aguentou a dor que vinha do coração!
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