Diz o povo que "o que nasce torto, tarde, ou nunca, se endireita". Não se sabe ainda se chegará a nascer - parece que sim, que acabará por nascer - mas este acordo de sustentação política da maioria de esquerda no Parlamento está com um parto tão difícil que é grande a probabilidade de nascer torto.
O momento histórico da declaração de intenções tarda em confirmar-se na substância do acordo. Ou dos acordos, e aqui a primeira dificuldade: uma maioria não é apenas a soma maior das partes. Construir uma maioria através de acordos separados com o Bloco e com o PCP, mais que enviezado, é torto. Negociar separadamente, sem que todos se envolvam e empenhem nas soluções comuns, é fazer com que o quer que nasça, nasça torto.
A segunda grande dificuldade está no timing do parto. Sabe-se que todo o parto tem o momento certo: antes, dá prematuro; depois, pode provocar traumas irreparáveis. Se poderá de alguma forma compreender-se que fosse difícil apresentar o acordo - enfim, os acordos - ao Presidente da República antes da indigitação de Passos Coelho, já não é aceitável que se esteja ainda a negociar como se o timing certo seja o da apresentação do programa do governo.
Neste momento o(s) acordo(s) teria(m) de estar concluído(s) - dando de barato que pudesse(m) não ser público(s) - e os seus subscritores tranquilamente à espera do momento de apresentar a sua moção de rejeição ao programa do governo. Mas não, não é nada disso que estamos a ver. Estamos a ver que o bluff continua no ar, como no ar está ainda a caricata decisão de cada um apresentar a sua própria moção.
Nos últimos dias, apenas uma boa notícia: a Catarina Martins calou-se. De resto, tudo más notícias: o PCP está em claro recuo, e António Costa, com a iniciativa de Assis, cada vez com menos espaço.
Termino como comecei: tem tudo para correr mal, um verdadeiro desafio á lei de Murphy. Se calhar, por isso, Passos também já revogou a sua decisão de não chefiar qualquer governo de gestão!
É normal que o nosso pensamento (a nossa percepção) mude na medida em que a realidade/actualidade sempre nos traz dados novos susceptíveis de serem integrados nas nossas análises sobre essa mesma realidade. Mas há sempre um nível fundador que devemos valorizar e assentar sempre que "contratualizamos" com os outros e que orienta essas análises. Esse pensamento fundador corresponde a uma estrutura de valores originária que para uns se chama "ética da/na ação" e para outros se chama simplesmente "carácter". Se assim não for, se o rompimento dessa premissa originária for determinada pela força necessária da História e pelo idealismo alucinado dos lideres, chamaremos a isso revolução. E tudo renascerá das cinzas... Mas se, ainda assim, nenhuma revolução houver e tudo descambar de facto, apenas podemos dizer que a ambição de poder mais se parece com a alucinação dos que têm pressa em dele se apoderar. Que se lixem os outros...grãos de areia na engrenagem..."peanuts"!
ResponderEliminarNo XVI congresso socialista, o presidente da câmara de Lisboa, António Costa, sublinhou que não há partido à esquerda que mereça credibilidade para uma coligação com o PS e descreveu o Bloco de Esquerda como «um partido oportunista que parasita a desgraça alheia e incapaz de assumir responsabilidades»
«Quando falam da convergência da esquerda, não é a convergência do conjunto das forças da esquerda, é uma convergência que visa exclusivamente a divisão do partido socialista para o enfraquecer. E é por isso que temos de nos manter unidos», apelou António Costa.
TSF/Rádio noticias, 2009
Ambição de poder, há sempre, caro António. Não há que iludir. Não estou certo se surge em rompimento com "a ética na acção" e por "alucinação" pelo poder. Sei é que há uma mudança profunda no espaço político nacional quando dois partidos que representam mais de 20% dos portugueses, tão portugueses quanto todos os outros, decidem abandonar o casulo do protesto puro e duro e entrar no espaço das soluções, fazendo rebentar o colchão onde o regime dormitava confortavelmente, a que davam o nome de "arco da governação". E sei que isso muda tudo, até o discurso do combate político. Cada vez mais desconfio que não vá acabar bem, mas isso é outra coisa...
Eliminar"Cada vez mais desconfio que não vá acabar bem, mas isso é outra coisa..." Correndo bem (o acordo à esquerda), ficarei positivamente interessado que corra bem. Até porque o País (as pessoas com mais dificuldades) não aguentará que os principais indicadores (em especial o desemprego, em especial o endividamento) se agravem mais. Tenho dúvidas, como dúvidas terás também. E espero que tenhas mesmo. E espero bem que esse novo "espaço de soluções" não seja só um espaço de certezas. Porque, desse modo, de certeza que a coisa não acabará bem."Não são as dúvidas, mas as certezas que alucinam" (Nietzche). A citação, claro, vale para os dois polos ideológicos, esquerda-direita. Abraço
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