quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Manual de política*

 


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 O folhetim da breve passagem de António Domingues pela Caixa Geral de Depósitos é todo ele um manual da forma de fazer política em Portugal.


Pela primeira vez um governo quis nomear uma administração profissional para a Caixa, à margem do comissariado político. Para aceitar o convite, o gestor escolhido impôs condições que chocavam com o quadro legal vigente. O governo fez tudo para satisfazer essas exigências, incluindo uma lei à medida, preparada pelos próprios advogados do dito gestor.


A lei, face aos objectivos que perseguia, foi mal feita e não resultou. Não conseguiu, nem podia, isentar os gestores da apresentação ao Tribunal Constitucional das declarações de património e rendimentos.


O gestor não gostou, e o governo não clarificou. O gestor demitiu-se e o governo nomeou novo gestor, por acaso, mas certamente que não, um ex-ministro do governo anterior. O assunto devia ter ficado aqui resolvido.


Não ficou. O gestor demissionário não se calou e disse que lhe tinha sido prometida a dispensa das tais declarações. O primeiro-ministro, e o líder parlamentar do partido do governo, apressaram-se a negá-lo. O ministro das finanças, com pouco jeito para a política, ficou entalado, e não teve outra alternativa que secundá-los.


A Caixa tem finalmente uma administração a funcionar. E o país boas notícias: o mais baixo défice de sempre em democracia, desemprego a cair, crescimento económico acima de todas as previsões, e até fortes aplausos de Bruxelas. E um Presidente da República em lua de mel com o governo.


Demasiado para uma oposição à espera do diabo, apostada no quanto pior, melhor. Vai daí e atira-se ao ministro das finanças, como gato a bofes.


É verdade: mentiu. Ou omitiu, que vai dar ao mesmo.


Mas, não mentem todos os políticos - por causa dos eleitores -, como disse o deputado do CDS que agora quer processar criminalmente Mário Centeno? Não mentiu Pedro Passos Coelho a torto e a direito? Não mentiu Maria Luís Albuquerque nos Swaps? Não mentiu Paulo Portas na demissão irrevogável? Não mentiram todos na saída limpa?


Os actos medem-se, acima de tudo, pelas suas consequências. Quais as consequências de Mário Centeno ter mentido?


Zero. Nada. Nem mesmo a perda do belíssimo emprego de António Domingues…


Quais as consequências dos swaps? Quanto custam? Quais as consequências da irrevogável demissão de Portas? Quanto se pagou pelo imediato aumento dos juros? Quantos milhares de milhões foram com Banif, na saída limpa? E no atraso na própria recapitalização da Caixa, agora em curso?


Pois… Estamos entendidos. É assim a política em Portugal…


 


* Da minha crónica de hoje na Rádio Cister

1 comentário:

  1. Não se preocupe com o atraso da recapitalização da CGD. Deu muito jeito ao governo adia-la para 2017!
    Quanto ao restante paleio da resolução dos bancos, é uma vergonha o que está a custar aos contribuintes aquela do BANIF. Se com as imposições da troica para um empréstimo de 78.000 milhões foi o regabofe que se viu, imagine só se o governo anterior tivesse que pedir mais 30.000 milhões para limpar os balanços dos bancos - nem é bom lembrar. Portugal não é a Irlanda - esse país neo-liberal que não cobra impostos aos capitalistas "inimigos do trabalhador", ao contrário da nossa classe trabalhadora que vive à custa do Estado e que seguiria os doutos conselhos de pseudo-cientistas como o sr. e salvaria corruptos e gatunos do erário público como os do GES. Não se esqueça que o fundo de resolução deu ao Estado lucro de milhões que este governo está a aproveitar para fazer figura de bem sucedido: um grande contributo para o défice. Mas isso não lhe interessa, não é verdade?

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