Na semana em que a selecção nacional garantiu o apuramento para o próximo campeonato do mundo de futebol, na Rússia. E em que o governo catalão declarou e suspendeu, segundos depois, a independência da Catalunha, a notícia é o despacho de acusação do Ministério Público na chamada Operação Marquês. Ou não seja este o maior e mais palpitante processo da nossa história judicial.
Finalmente! Dirá a grande maioria das pessoas, uns num sentimento de alívio, outros de enfastiamento.
Compreendo o primeiro, não aceito o segundo. Pela simples razão, que facilmente se percebe, da enorme complexidade da matéria investigada e da qualidade dos acusados, todos da elite política e empresarial do país. Tudo gente que, tendo ou não feito as coisas de que estão acusados, sabe como se fazem. E tem todos os meios para as fazer. Não são meros pilha galinhas, gente desprevenida, descuidada ou desprovida.
Aquilo que é conhecido, e que de alguma forma fomos conhecendo – nem sempre da forma mais edificante - ao longo destes últimos três anos, a ponto de hoje o despacho de acusação não nos apanhar de surpresa, é suficiente para percebermos o grau de sofisticação usado na prática dos crimes objecto de acusação: 31, só à conta de José Sócrates. E consequentemente das dificuldades da investigação.
Daí que entenda este “finalmente” como um grande sentimento de alívio. De alívio por saber que a Justiça dispõe de recursos para desatar os nós mais complexos, labirínticos e apertados. Mas também de alívio – por muito politicamente incorrecto que possa ser - por ter chegado a uma acusação. A pior coisa que poderia ter acontecido à Justiça e à democracia portuguesa era o arquivamento deste processo por absoluta falta de provas
Segue-se agora a inevitável instrução, já requerida. E depois o julgamento dos crimes que permaneçam acusados, com todas as manobras dilatórias que já poderemos adivinhar, e que muito certamente arrastarão o julgamento muitos anos, no maior teste de sempre à Justiça portuguesa.
* Da minha crónica de hoje na Cister FM
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