
O Algarve arde há quase uma semana a fio, sob uma chuva – que nada apaga – de críticas e acusações à forma como está a ser combatido. Críticas e acusações às prioridades, aos meios, à estratégia, à desorganização…
No início da semana, logo na segunda-feira, o fogo chegou a ser dado por controlado. Chegou a dizer-se que 95% do incêndio estava circunscrito e dominado. Em poucas horas, da manhã para a tarde, passou a incontrolado e incontrolável. Sem qualquer explicação, sem que ninguém ainda perceba porquê. Foi neste quadro trágico, em que todos os dias pessoas perdiam casas sem que ninguém lhas defendesse, e sem sequer lhes permitir que as defendessem elas próprias, com o fogo a avançar sobre aldeias, vilas e cidades, indiferente aos meios de combate que lhe despejavam para cima, que António Costa chegou de férias e resolveu chocar o país, incendiá-lo mesmo, afirmando que Monchique não era mais que uma ilha de excepção no oceano imenso do sucesso no combate aos fogos.
Não. Monchique não é a excepção ao sucesso no combate aos incêndios. É a prova de que, ao primeiro teste realmente difícil, o combate aos fogos falhou. Não. Por mais que queira, o chefe do governo não consegue convencer ninguém de sucesso nenhum, num Verão de frio e chuva que, esse sim, teve em Monchique a excepção.
Mas, se calhar nem é este lado mais objectivo, ou operacional, o que mais releva da tresloucada declaração do chefe do governo. O que mais conta, e o que mais ficará a contar, é que o primeiro-ministro quis mais uma vez lastimar-se da falta de sorte. Que teve êxito em todos os combates, menos num. Azar, diz ele…
O que mais choca é que voltou a deixar exactamente a mesma impressão de há um ano. Que, para António Costa, catástrofe é que a catástrofe lhe estrague tudo o que estava a correr tão bem.
Isto é de uma insensibilidade atroz. E provavelmente imperdoável!
* A minha crónica de hoje na Cister FM
Detesto repetições.
ResponderEliminarMas dada a repetição da tragédia, acompanhada da repetição da insensibilidade quiçá irresponsabilidade, repito-me também colando um comentário escrito há pouco noutro blogue, o Eduardo que perdoe a repetição. A minha! As do Costa são, como diz, imperdoáveis.
As alterações climáticas existem. Facto.
O Homem aprendeu a utilizar o Fogo, mas não a dominar o Fogo. Facto.
Os incêndios nestes últimos anos atingiram violências inigualáveis, e não apenas em Portugal. Facto.
Gosto de factos. Mas passava bem sem estes, embora não sejam de reversão fácil ou imediata.
Outro facto aparentemente sem reversão fácil ou imediata é a inexistência de Protecção Civil em Portugal. Que o seja efectivamente já é falácia. Que muitos nos têm tentado vender nos últimos 30 anos, mas António Costa prima pela capacidade de antevisão na matéria e na felicidade da palavra fácil - inadequada também...
Poderia tentar analisar o discurso como uma tentativa de tranquilizar os cidadãos, traumatizados que estamos - e perceberia a tentativa, embora deplorasse o optimismo quase a roçar a irresponsabilidade, como se nada tivesse aprendido com as perdas de 2017.
Tal discurso deveria ser acompanhado de acções concretas que mostrassem uma estrutura coordenada de prevenção e socorro, mesmo apesar de haver fogos que não se podem combater e apenas circunscrever. Que provassem a tranquilidade no terreno, agora quando e onde são necessários - não porque consequência do discurso mas exigência da nação.
A responsabilidade é dos Governos, deste e dos anteriores? Sim. As estruturas não se criam e consolidam em dois anos, e nunca houve política florestal ou política de ordenamento ou política de protecção civil. Pelo menos concretizadas, concedo. E desconfio que se tivessem havido não teriam tido continuidade, que nisto de governança são mais clubistas que no desporto.
Houve tempo para promover alterações de fundo na Floresta? Não. O ordenamento do território, no limite, é tão lento quanto o ciclo de crescimento das plantas que o povoam (ou deveria ser, mas até os carvalhos têm atingido maturação em menos tempo que alguns PGF...)
Houve tempo para reforçar a formação e o corpo de bombeiros e sapadores? Não. A formação de seis meses mal lhes permite aprender a lidar com o equipamento, muito menos aprender técnicas e desenvolver resistência e perceber acções no terreno.
Houve tempo para fazer alterações de fundo na estrutura e na dinâmica da Protecção Civil? SIM. Porque a Protecção Civil não é só Bombeiros. É uma rede de informação, de assistência, de vigilância - que inclui médicos e enfermeiros e pessoal auxiliar, não apenas polícias e bombeiros + sapadores, estes dois últimos mal formados. E que deveria incluir umas Forças Armadas organizadas para lidar com a sociedade civil em situação de emergência [aparentemente, as hierarquias e os brios de cada posto de comando comandam mais que a organização da própria cadeia, talvez por isso se prendam tanto nestas coisas], e uma Sociedade preparada para lidar com emergências [folhetos na caixa de correio, sms e anúncios televisivos são muito giros e certamente dão dinheiro a alguém; mas se os municípios dão dinheiro para a construção das sedes dos clubes das terrinhas, poderia o Estado usar estas infra-estruturas para dar formação continuada aos cidadãos, sem complexos de culpa com "autoritarismos" e "requisições civis" que levam alguns governantes a pagar alugueres].
Em suma, penso que as alterações possíveis apenas não foram feitas porque se fez gestão à político em vez de gestão política.
A maturação dos processos demora e está sujeita a erros, mas a melhoria é contínua e em algum momento se define o início. António Costa perdeu esse momento. Lamentavelmente por e para nós.
Notas:
PGF é sigla que indica Plano de Gestão Florestal. Uma espécie de PDM das florestas. Mas ainda menos cumprido.
O que mais António Costa poderá ter perdido são contos que não entram nesta história,
Facto: a falta que já cá estava a fazer.
EliminarObrigado, Sarin.
Confesso que tinha saudades....
EliminarEu é que agradeço, Eduardo :)