Nos últimos anos temos conquistado uma série de novos direitos. Ou novas regras e novas roupagens em velhos direitos. Novos direitos, ou simplesmente novas formulações de velhos direitos, - a diferença não tem qualquer relevância para o caso – a verdade é que têm sido implementadas novidades no nosso quotidiano que nos deixam uma sensação de protecção. De, enquanto cidadãos e consumidores, enquanto elo mais fraco das diversas cadeias que integramos na nossa pacata vida comum do dia-a-dia, nos sentirmos mais protegidos no confronto sempre desigual com as grandes organizações com que temos todos os dias de lidar.
Aqui há uns anos a legislação obrigou os bancos, e de um modo geral as empresas do negócio financeiro, a especificarem tudo nos contratos – taxa de juro, despesas, valor total do desembolso… Tudinho, supostamente para que o cidadão/consumidor tomasse consciência de tudo o que iria pagar.
Toda a gente sabe que nada disso altera nada nessa relação desigual entre quem tem o dinheiro para satisfazer o consumo e o consumidor sem dinheiro que não resiste ao ímpeto de consumir. Mesmo assim, logo bancos e sociedades financeiras lhe deram a forma de letra miudinha, daquelas que ninguém lê, que já conhecíamos das seguradoras, porventura os mais antigos malfeitores. Engraçada foi a maneira encontrada para a comunicação oral, na publicidade na rádio e na televisão, onde a letra miudinha foi convertida na leitura dessa parte do conteúdo a uma velocidade estonteante, que torna completamente imperceptível o que está a ser lido.
Engraçada também é a legitimação da coisa manhosa: o tempo em publicidade é demasiado caro para ser gasto com mensagens laterais, e ainda apor cima obrigatórias.
Também já percebemos como funciona a legislação sobre a protecção de dados, em vigor desde Junho passado. Melhor, como não funciona. Porque, lá está outra vez, a desigualdade em confronto.
Nos contratos escritos, lá regressa a velha fórmula das letras pequeninas em páginas e páginas que ninguém consegue ler. Mas com que tem de se concordar. Nas plataformas, ou nas diferentes apps que agora há para tudo e para nada, é a mesma coisa. Mas pior - enquanto não concordar não sai do mesmo sítio. A cada click na internet temos invariavelmente que autorizar tudo o que nos põem à frente, e ceder em toda a nossa privacidade a troco de coisa nenhuma … É simples: ou desistimos do que procuramos, ou fintamos as barreiras todas que nos põem à frente para lá chegar. Não há terceira via, ler aquilo tudo para decidirmos se aceitamos ou não, nunca é alternativa. Simplesmente ninguém tem tempo para isso e, se tiver, quando acabar já nem se lembra exactamente do que estava à procura.
Pois é. Alegremente convencidos que estamos cada vez mais protegidos, estamos afinal cada vez mais entregues à bicharada!
* Da minha crónica de hoje na Cister FM
É impressionante a quantidade de coisas sobre as quais o Estado literalmente se entretém a legislar, sabendo à partida que se vai auto dispensar de fazer cumprir seriamente. Estou a pensar concretamente na divulgação de peças processuais em transito nos próprios tribunais.
ResponderEliminarquando alguém é apanhado com meio-quilo de cocaína vai preso por ter uma coisa ilegal. É pressuposto ser para fazer negócio ilícito.
ResponderEliminarmas se alguém é apanhado com uma cassete, pen, ou pasta de documentos descrevendo um processo em segredo de justiça, não acontece nada... supõe-se que é para exercitar a cultura geral...
Um dia houve que resolvi ler a política de privacidade de uma plataforma jornalística. Os três primeiros pontos foram suaves. No quarto, tive de autorizar os meus dados junto de cada parceiro; vislumbre, e contei aproximadamente 80. Olhei o relógio e pensei ter tempo. Ia no sétimo ou no oitavo e notei que todos começavam por A. Todos os que já tinha lido e autoruzado e os outros setenta e tal... Todos! Faltava o resto do abecedário. Nunca mais li tal jornal.
ResponderEliminarSeria a isto que se referiam no Governo quando murmuraram ser necessário verificar a situação dos órgãos de comunicação?
É realmente extraordinária esta capacidade de transformar boas ideias em desavergonhada palhaçada, Sarin.
ResponderEliminarA articulação não seria difícil, se os políticos consultassem técnicos e especialistas. Mas repare como as comissões da especialidade ouvem os especialistas que mais não são que antigos membros de outras comissões da especialidade... caramba, a roda foi uma grande invenção, mas estou cansada de dar à nora, Eduardo...!
ResponderEliminarMas eles consultam! Quanto mais não seja para estudar a maneira de fazer exactamente o contrário.
ResponderEliminarA maioria dos especialistas consultados são chefias - aquelas coisas porreiras atribuídas em muitos lugares por confiança política e não por competência técnica. Veja o caso das vacinas há duas semanas. DGS para quê?
ResponderEliminarQualquer que seja o problema, não há quem melhor seja capaz de o resolver, do que um belo de um manga de alpaca.
ResponderEliminarExacto: alpacas para ajudar os carneiros a decidir pelo resto do rebanho.
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