sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Falta sempre qualquer coisa*

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Quando começamos a ouvir os números do balanço da GNR à sua operação de Natal – este ano chamada de “Natal tranquilo” – começamos a achar estranho. Tínhamos dado por garantido que acidentes e mortes na estrada, sendo inevitáveis, eram praga sob controlo e cada vez mais residual, e por isso soava-nos a estranho que as estatísticas tivessem disparado.


Quando constatamos a mesma coisa na Operação Ano Novo, percebemos que estávamos perante uma tendência, e não apenas a chocar de frente com qualquer coisa de circunstancial.


Olhamos para os dados anuais e, com alguma estupefacção, confirmamos isso mesmo. A sinistralidade nas estradas portuguesas, e a sua consequência mais drástica – a morte (513 mortes no ano que acaba de se despedir) – cresceu em 2018, em relação a 2017, quando já tinha também crescido relativamente ao ano anterior. São dois anos a inverter uma tendência que vinha já dos anos 90, com mais de vinte anos.


Os acidentes de automóvel e as mortes na estrada são dos mais fortes indicadores de desenvolvimento. São uma chaga, uma catástrofe nos países subdesenvolvidos, e praticamente marginais nos países mais desenvolvidos.


Percebe-se por quê. Melhores estradas, melhores carros, melhor educação... Aí está!


Temos por cá boas estradas, mas na sua maioria caras, o que empurra a maioria do trânsito para as que têm menos condições e mais perigos. Não podemos dizer que sejamos um país equilibrado na distribuição da frota automóvel, mas também não é nos automóveis que mais nos afastamos da média europeia. Deixamos de ver, com a frequência que víamos, a mais surreal agressividade que há uns anos víamos nas nossas estradas, em que o mais pacato cidadão se transformava num terrorista logo que se sentava ao seu volante. Mas estamos ainda longe de cumprir com a maioria dos requisitos cívicos da cidadania.


Que não são, de resto, especialmente induzidos pelo Estado quando, em vez de canalizar os seus recursos para enfrentar a guerra nas estradas, prefere utilizá-los na caça à multa.


Parece que é isso. Que temos tudo para ser um país desenvolvido, mas falta sempre qualquer coisa.


 


* A minha crónica de hoje na Cister FM

16 comentários:

  1. Tantos responsáveis: desenvolvimento, estradas caras, multas....e o condutor?, isento de culpa? carros mais seguros, estradas mais seguras e os condutores só se preocupam em testar os seus limites e se transformarem em super-heróis.

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  2. Não iam aparecer uns carros que cumpriam as regras de transito independentemente do condutor querer ou não ?

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  3. ''Que não são, de resto, especialmente induzidos pelo Estado quando, em vez de canalizar os seus recursos para enfrentar a guerra nas estradas, prefere utilizá-los na caça à multa.''
    Concordo.
    Muitos condutores não estão isentos de culpas, mas que não haja dúvidas que a Prevenção Rodoviária em Portugal - uma das razões de existir da ANSR, convém relembrar - simplesmente não existe, a não ser que se considere prevenção radares dissimulados.
    Se em vez destes, estiver uma patrulha na berma da estrada bem identificada e visível, ou a circular abundantemente por aí, até o maior acelera deste mundo levante o pé: instintivamente, é um comando do cérebro que não se consegue controlar, tal como respirar.
    E com isto se evitavam acidentes.
    A prova? A operação Natal e Ano Novo com centenas de milhares de militares nas estradas - que estão sobretudo a mandar parar os que foram apanhados em radares -, amplamente divulgadas, e mesmo assim as mortes duplicaram. Na verdade, patrulhas não vi nenhuma, mas radares atrás de pilares de pontes vi vários...
    Se todos os anos se investe tanto nestas operações e os resultados são os que se sabe, também não estará na altura de mudar de estratégia?
    E não atirar culpas sempre para os condutores? Que alguns são de facto culpados, repito, mas serão os únicos?
    Há uns anos, numa daquelas rectas alentejanas o número de acidentes, alguns mortais, era gritante. A esquadra local, sem orçamento para radares a 200.000€ cada um, pagou a um ferreiro para construir uma imitação, tripé incluído, e mandou pintá-la de preto. E pediu-lhe para o fazer em segredo. Durante os vários meses em que uma patrulha, quase diariamente, se colocou nesta estrada com este 'radar', tudo bem visível, e enquanto o segredo aguentou: 0 acidentes!
    Com uma dúzia de euros, praticou-se verdadeira Prevenção Rodoviária e mais importante que tudo, salvaram-se vidas!

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  4. Isso mesmo, caro encartadao. Desenvolveu bem o que a frase que citou quer dizer.

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  5. Também é disso que o texto trata. Educação e civismo, mesmo que também aí alguma coisa tenha melhorado.

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  6. "Mas estamos ainda longe de cumprir com a maioria dos requisitos cívicos da cidadania". O grande problema é esse, outro são os que só vêm o que lhes interessa de modo a manipular as pessoas. A falta de civismo neste país é assustadora e está quase em todo o lado não só nas estradas. E neste país da diversão e do individualismo tenho duvidas que se preocupem com os outros, o que interessa são as aparências, o que interessa é enganar, o que interessa é o "circo". É nisto que vemos o desenvolvimento!

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  7. "A caça à multa"...Por acaso sabem se, nos ditos países desenvolvidos, as contra ordenações são tratadas com paninhos quentes? Este é o chavão mais imbecil que temos no nosso país. Até me atrevo a dizer que provavelmente temos tido menos fiscalização. Toda a gente sabe que em anos de eleições, as multas passam a assunto sensível. Não posso afirmar com certeza, porque não tenho dados, mas da minha experiencia há cada vez mais pessoas a falar ao telemóvel enquanto conduzem. Agora arranjem isso com melhor estradas e melhores carros... Haverá melhor forma de dissuadir o atrasado mental do tuda do que ir-lhe ao bolso? Vocês não se cansam do discurso do coitadinho? Ai coitado foi multado porque andavam na caça à multa... Enfim é a nossa triste cultura e graças a ela no fim fica tudo na mesma. Irra!

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  8. Perdem-se mais de 500 vidas inutilmente, mas aí jasus, a caça à multa...Na minha terra, chama-se conices...

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  9. Não é nada disso que é dito. Simplesmente a caça à multa não é presença dissuasora. É também ela uma atitude pouca cívica.

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  10. Então diga lá porque é que a caça à multa é falta de civismo. Se a pessoa souber que nunca vai ser apanhada desprevenida...deve resultar maravilhas com os inconcientes dos portugueses. Por falar nisso, dado que a tendência é sempre a subir, não era suposto haver uma cabeça a rolar, que não fosse a do triste inocente apanhado num acidente com um retardado? É que a responsabilização também pode ser um bom catalisador de melhoria para além do medo da multa.

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  11. Repondo-lhe à pergunta que colocou: porque civismo é transparêcia e respeito nas relações em sociedade. Respeito dos cidadãos entre si, e pela autoridade. E respeito da autoridade pelos cidadãos. Polícias escondidos, à espera como um caçador espera pela presa, não é a mesma coisa que polícias presentes a disciplinar comportamentos. Polícias escondidos, induzem revolta. Polícias à vista induzem civismo!

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  12. Se a lei diz claramente, amigos, de forma a desencorajar comportamentos que matam inocentes, podemos estar escondido e multar prevericadores, onde está a falta de transparência
    ? Como diz o ditado quem não deve não teme. O civismo não se impoe por decreto. Mas o medo sim. Se há crime há castigo, mais transparente que isto era impossível e se calhar evitavamos algumas tragédias pelo caminho.

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  13. Pois é... Todos nós somos condutores (uns mais conscienciosos do que outros,,,) mas, quem se lembra que antes de o ser (condutor) era peão? E esta condição, de peão, coincide, não no tempo mas sim no espaço. Quantos de nós, enquanto condutores, se lembra da sua outra condição (muito mais exposta!)?
    Outro aspeto: alguém tem que saber ao mesmo tempo do que eu para onde eu vou? Se para a esquerda se para a direita? Querem lá ver que querem que eu seja simpático e condutor colaborante e que sinalize a minha intenção de mudar de direção? Era o que mais faltava…
    E, agora, uma alfinetada na produção automóvel e no aproveitamento das evoluções tecnológicas a nível das tecnologias de ponta, para introduzir nas viaturas autênticas ferramentas para suicídio, tais como comunicações via internet enquanto se conduz, quer seja com muito ou pouco trânsito, a baixa ou alta velocidade? Esta indústria poderosa tem, também, a sua quota parte na sinistralidade na nossas estradas, para não falar na autorização dada pelas entidades com esse poder, para comercialização de tais caixões com rodas… A repartição de culpas, pelos vários atores da condução, tem que ser muito mais vasta e considerar outros agentes para além do estado da estrada, da caça à multa (há situações perfeitamente execráveis e condenáveis em tal prática!!!).
    Haja civismo e respeito mútuo!

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  14. Lá porque também se pratica noutros países, ou porque está na lei, o cidadão não tem que comer e calar. Neste país também há leis que obrigam a IVA máximo na electricidade e mínimo nas touradas, e isso não é sinónimo que assim é que tem que ser, ponto final, e que não há alternativas.
    Se nos últimos 10/20 anos o CE já foi alterado várias vezes sempre com multas e penalizações cada vez mais pesadas, incluindo agora pontos na carta, e continua a morrer gente na estrada, não concorda que a estratégia de aplicação do CE pelas autoridades, e métodos de fiscalização por parte destas, precisam de ser revistas?
    E mais ainda quando, quer os mortos na estrada, quer os métodos de fiscalização, são transversais aos ditos países desenvolvidos, nos quais as nossas autoridades se vão 'inspirar'?
    Além disso, há por aí muitos acidentes que aconteceram mesmo quando o culpado ia a cumprir o CE à risca. Mas o que as autoridades só dizem na televisão é que os condutores portugueses são uns aceleras e uns bêbados, claramente para justificarem as operações natal e afins, e procedimentos que - volto a repetir porque acho que o sr. Anónimo não percebeu - simplesmente não se revestem de Prevenção Rodoviária propriamente dita, e sobretudo não evitam acidentes nem salvam vidas.
    E quanto a cada vez mais pessoas falarem ao telemóvel ao volante, também não tenho dados, mas acho que será precisamente ao contrário, tendo em conta que hoje em dia praticamente todos os veículos e telemóveis têm bluetooth.
    E se reler o que escrevi, não encontra lá nenhum discurso meu do coitadinho porque foi apanhado na caça à multa, muito pelo contrário. Se não cumpriu a lei - dura lex, sed lex - tem que assumir as consequências.
    O que eu disse é que não é com radares escondidos que se evitam tragédias e famílias desfeitas.

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