quinta-feira, 2 de abril de 2020

A voz que vale a pena ouvir

Estado de emergência. A entrevista na íntegra a Ramalho Eanes


 


António Ramalho Eanes deixou-nos ontem à noite, numa entrevista à RTP 1 - mesmo reconhecendo-lhe alguns méritos profissionais, não gosto do tom (do tom, do registo, dos apartes...) da entrevistadora, confesso -  mais um exemplo do que é uma voz autorizada e respeitada. Ou do que é a reserva moral de uma nação.


Eanes tornou-se acidentalmente, pode dizer-se, Presidente da República. Ainda jovem, e em condições históricas muito particulares, como se sabe. Na altura, e nessas condições históricas, foi eleito pela direita, em 1976,  e reeleito pela esquerda, em 1980. Criou o "eanismo" e deixou Belém em 1986, no meio de alguma turbulência com a criação do PRD, onde andou entre um pé fora e outro dentro, a que deu e tirou gás, deixando sempre uma sensação de não saber muito bem o que fazer com o seu próprio espaço político, que desapareceria com os finados do partido às mãos do cavaquismo. 


 Recordo-me de uma entrevista à mesma RTP, então ainda televisão única, na véspera da despedida de Belém, onde chegaria no dia seguinte Mário Soares, um "velho" inimigo político. Eanes concluía 10 anos no mais alto cargo da Nação sem nunca ter revelado o seu lado mais humano e pessoal. As suas manifestações públicas esgotavam-se nos actos oficiais, e na verdade era uma pessoa desconhecida,  sempre escudada naquela esfinge imperturbável e austera.  A minha expectativa era grande. Livre das amarras da função, e com ambições políticas,  soltar-se-ia finalmente da esfinge - admitia eu - e daria finalmente a conhecer-se. O seu mundo, o seu pensamento, a sua verdadeira dimensão política.


Recordo-me como fiquei decepcionado com a entrevista. E com o vazio político de um homem que tinha sido Presidente da República e que, aparentemente, mantinha aspirações políticas para continuar a influenciar o país.


Por tudo isto, no meu ponto de vista, a história deste homem na História do país estava feita. Já teria pouco a acrescentar.  


Mas é aqui que tudo muda. Eanes abdica dessas aspirações, deixa cair o PRD e, caso único em Portugal e não sei se no mundo, dedica-se ao estudo e à investigação científica, culminando no doutoramento pela Universidade de Navarra, em 2006, com a tese "Sociedade civil e poder político em Portugal". E inverte completamente o destino que o meu ponto de vista lhe traçara no fim daquela entrevista há 34 anos.


À honradez e a dignidade, que sempre estiveram na esfinge austera da sua imagem de marca, Eanes acrescentou vida, exemplo, conhecimento, experiência e prestígio. E por isso é, aos 85 anos, a voz que os portugueses escutam com respeito e atenção. E que vale a pena sempre ouvir!


 

5 comentários:

  1. O meu hábito de ver televisão é tão pouco que acabo por, na fuga ao lixo, perder as pérolas.
    Mas espreitei um pouco esta tarde e, do bocadito que vi, concordo contigo. Em quase tudo - a boa impressão que tenho de RE conta alguns anos. Mas sim, foi criada já neste milénio, à boleia das ocasionais intervenções.

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  2. Tenho a (desv)vantagem de ter mais uns muitos anos que tu, e com isso a "memória sensorial" (inventei agora, mas acho que dá para perceber) que dá outros contornos à "memória histórica".

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  3. Acabei de me cruzar com este texto do João Marcelino no Económico (https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/eanes-o-mais-velho-570694), que vale a pena ler; e que, curiosamente, termina com a mesma ideia com que termina o meu texto: "A vida não acaba na escola, num quartel, em qualquer palácio, mesmo que em Belém. Um homem vai por essa vida e pode tornar-se, produto de experiências várias, numa referência coletiva, numa pessoa ainda melhor. Ramalho Eanes concluiu um doutoramento, em Navarra, já passava dos 70. Hoje tem 85. E dá-nos lições. Venham outras."

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  4. Se outras não houvesse, o continuar a estudar depois de ter ocupado o mais alto cargo da Nação seria, por si, uma excelente lição. E gosto muito da frase "um homem vai por essa vida (...)" - se não por mais, vale a pena visitar o artigo por este bocadinho de poesia.
    Obrigada pela partilha :)

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  5. Percebi, acho que percebi. É difícil desfazer más impressões. Eu era tão novita quando ele entrou para o cargo (por acaso, acho que ainda estaria na tua terra por essa altura), que só me lembro de o ver na televisão, uma estátua que não despertava qualquer interesse à pirralha que eu era. Já do PRD recordo muito melhor. Mas não sou de rancores* :D

    * achei que havia sido uma manobra para capitalizar a figura (na altura não usaria estes palavrões, mas outros), mas que soube sair quando percebeu que não havia espaço para um partido vazio - na altura os partidos tinham ideologia, valores e projectos políticos, disso lembro-me muito bem.

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