
O país ficou esta semana a conhecer a acusação a Ricardo Salgado, e com ela a saber mais um pouco das linhas com que durante tantos anos se coseu.
Na semana passada a EDP mostrou outro tanto. Em curso, e à espera que a sua hora chegue, estão outros tantos, com a Operação Marquês à cabeça. Irão mostrar mais dessas linhas e mais das teias que o regime teceu, com a certeza que os nomes são os mesmos. O país não é assim tão grande, e Ricardo Salgado era afinal “o dono disto tudo”.
Quando, nas raras vezes em que são confrontados com alguma coisa, os políticos se sentem incomodados com questões judiciais, logo respondem, como que a sacudir a água do capote, que “à Justiça o que é da Justiça, e à política o que é da política”.
Mesmo que tarde – e mais vale tarde que nunca, como recordou o Presidente da República – a Justiça está a responder. E se olharmos bem para a dimensão da acusação, para o nível de sofisticação e de complexidade do que está em causa, talvez aceitemos que, para descobrir aquilo tudo, cinco ou seis anos não seja tempo de mais.
Se o trabalho dos procuradores e de toda a investigação foi bem feito, acusação estiver solidamente sustentada em factos cabalmente provados, e o trabalho dos juízes vier a ser igualmente bem feito, a Justiça terá feito a sua parte.
Mas para que o país mude, e deixe definitivamente de ser o que a Justiça nos está a mostrar que é, não basta uma acusação, um julgamento e uma punição. Falta o resto. E o resto é limpar as teias, é fechar as portas giratórias e é introduzir ar fresco no sistema. O resto é … da política.
Justamente: “à política o que é da política”. Pena que daí não venham grandes sinais…
* A minha crónica de hoje na Cister FM
Só sabemos destas trapalhadas do BES porque Passos Coelho disse não ao todo-poderoso Ricardo Salgado. Fosse por não precisar dele ou por ter os fundos presos em Bruxelas, disse que não. Já António Costa, bastante depois, quando já era Governo, e já se entrevia a dimensão da desgraça, disse que teria salvo o BES - possivelmente abafando-o com o manto opaco da CGD, onde todas as vigarices seriam sigilosas como as que por lá estão a marinar, com a extraordinária desculpa de não causar danos reputacionais a caloteiros reincidentes. Possivelmente porque o BES, tal como a TAP onde preside o insubmersível Frasquilho, seja “estratégico”.
ResponderEliminarMais virá - onde estão os quatro mil e quinhentos milhões que desapareceram do BESA, num negócio tão estranho que, se bem recordo, obrigou o poderoso DDT a contratar seguranças israelitas por algum tempo?
O BES já custou muito aos contribuintes, e muito mais custará, mas ao menos não estamos todos a pagar para Salgado continuar a ser o dono disto tudo.
"pouco das linhas com que durante tantos anos se cozeu." Ou coseu...Cozido ainda não está. Está só a caminho disso.
ResponderEliminarTem toda a razão. As minhas desculpas, para si e para todos os leitores, pelo lapso, que já corrigi. Antes de ser cozido. Ou frito.
ResponderEliminarObrigado.
O grande, enorme (!) elefante nesta sala é, obviamente, o antigo primeiro-ministro José Sócrates...
ResponderEliminarSim, Passos Coelho teve o mérito de dizer não. Só que também teve e demérito de, antes, ter estado quieto e, depois, continuar quieto. De ter sido totalmente inconsequente e ter simplesmente ficado a assistir a tudo, quando haveria muita coisa a fazer para evitar que nem tudo corresse como acabou por correr.
ResponderEliminarE o que podia fazer? Pagar do bolso dele? O caso seguiu para o MP, que é quem trata dessas coisas.
ResponderEliminarSe fosse António Costa o caso provavelmente seguia para a CGD, que é quem lhes trata dessas coisas...
...se pudesse, pois se bem se recorda o BCE avisou numa sexta-feira o BdP que na segunda-feira seguinte o BES tinha de apresentar rácios decentes, ou fechava a torneira.
Até eu, que sou meio iliterado financeiro, percebi que alguma quietude nesse tempo foi parte de todos os meios possíveis para evitar uma corrida aos bancos que seria fatal a todos - e não foi só cá que boa gente reassegurou as populações acerca de bancos que depois fecharam as portas.
Se fossem os próprios PRs e PMs a lançar o pânico, todos os bancos tinham colapsado. É claro que o último aumento de capital do BES não devia ter sido autorizado pela CMVM e pelo BdP, e muito menos as pessoas tranquilizadas pelo PR, pela CVMM, pelo BdP, pelo ministro das finanças, e por António José Seguro - não por Passos Coelho, se bem se recorda. Voltarei a esse tema.
Posto isto, até eu que sou burro percebi que o BES cheirava mal, assim que Salgado recusou ajuda do Estado. Eu não acreditei que o BES fosse o único banco do mundo a não precisar de ajuda - era bom demais para ser verdade, e geralmente quando assim é, não é verdade. Como sou pessimista, o que pensei foi que o BES não queria que lhe vissem as contas de perto. E tirei de lá a minha, e ainda bem, senão ainda estava agarrado ao Novo Banco, que trata tão mal os clientes como bem os gestores.
Isto passa-se anos antes do colapso. E o que sucedeu depois? O BES esvaziou a PT com a ajuda de Granadeiro e Bava, primeiro com a venda da Vivo e consequente distribuição de dividendos, depois com a Rioforte. O BES tentou esvaziar a Semapa - e Pedro Queiroz Pereira travou-o dum modo bastante público, desfazendo as participações cruzadas e mandando auditar o BES, auditoria essa que entregou ao BdP. E o BES oferecia juros de 6%, 7%, e 10% por emissões de obrigações perpétuas, quando o mercado andava abaixo dos 3% para esse tipo de operações.
Conclusão? O BES não tinha cheta e estava a arrepanhar todos os cantos onde podia haver algum.
Porque razão as pessoas normais, como eu, não viram? Eu tenho um familiar que trabalhava no BES e que se endividou para ir ao aumento de capital. Salgado conseguiu convencer muita gente de que era um génio das finanças, o homem tinha pose. E aí eu tirei de lá todas as poupanças do meu pai - é por isso que ainda as tem.
E o aumento de capital cheirou a esturro desde o início. Os dois maiores accionistas - o GES e o Crédit Agricole - não foram ao aumento e venderam todos os direitos. E mesmo com essa pressão vendedora monstruosa, se está recordado, os direitos subiram 60%. Como?
Estou-lhe a contar isto para ter uma idéia de que eu tinha lá o meu empatado - ordenado, créditos - e o meu pai tinha lá as poupanças duma vida. Foi por isso que comecei a ler as letras miudinhas e as entrelinhas das notícias.
Por que é que os outros não leram? No contrato das obrigações perpétuas estava lá escrito que a qualquer momento podiam ser convertidas pelo BES em acções - estava na página seiscentos e tal, mas estava.
Lesados do BES? Os que conheci pertencem a duas categorias; os garganeiros que querem ficar ricos da noite para o dia, e os "doutores" que têm vergonha de dizer que não sabem. Os que caem em todas, na D. Branca, no Bitcoin, no Forex, em qualquer coisa que prometa 200% ao mês. Nem um cêntimo merecem recuperar. Se não o perdessem no BES iam perdê-lo noutra coisa qualquer.
Voltando ao tema de não dizer nada, não fazer nada, eu fiz o que achei por bem, e sofri as consequências - o meu pai deixou de me falar quando lhe vendi as participações que tinha no BES e lhas coloquei a salvo, e quando o BES caíu fui eu que não lhe falei mais.
Mas pensei muito no que faria se fosse responsável por um sistema bancário ou pela economia dum país, quando estava tudo a arder em todo o lado. E não sei o que faria. Eu sei, e você também, que qualquer b
Então está-me a dizer que afinal a culpa é dos lesados. Até porque um banco deve ter toda a liberdade de fazer tudo e mais alguma coisa. Mesmo com incentivo ao investimento no mesmo pelo PR da altura, as pessoas que não fossem burras... Está boa, está. Os pedófilos também não têm culpa que as miúdas hoje em dia sejam provocadoras e se vistam como mulheres não é? Elas que vistam roupas apropriadas para a idade e não se metam a jeito.
ResponderEliminarOlhe, João, dispenso comparações estúpidas e inferências igualmente estúpidas. Escrevi o que escrevi, não escrevi o que não escrevi, não vou argumentar sobre o que não escrevi.
ResponderEliminarQuanto ao que escrevi, pois se as pessoas tinham, ou têm, confiança total no que dizem políticos e reguladores, a ponto de assinarem de cruz, sem ler o que assinaram, têm o que merecem. No final desse tipo de contratos há uma linha que diz “li e compreendi” - mesmo acima de onde se assina. Se não leram, não compreenderam, e não se deram ao trabalho de procurar informação - e havia informação, que eu li - e assinaram, legalmente deram o seu consentimento. Caveat Emptor, sabe?
Com o BESA podemos dizer que Ricardo Salgado foi buscar lã e saiu tosquiado.
ResponderEliminar"O BES já custou muito aos contribuintes, e muito mais custará, " porque na separação das águas foram protegidos alguns nomes de estimação da capital, partidos políticos, clubes de futebol e outras máfias.
A desgraça do BES pertence por inteiro à política.
É mesmo. E note-se que alguns dos protegidos tiveram direito a perdões no BES, no BCP, na CGD, e até já no Novo Banco. Assim às dezenas e centenas de milhões de cada vez. E é malta que reside nas revistas cor-de-rosa, em galas e saraus, iates e vivendas. E vai-se a ver, quando o fisco aperta, só têm em seu nome um par de gravatas. Seria até piada, se não andássemos todos a pagar o que eles obviamente nunca poderiam ter num estado de direito funcional.
ResponderEliminarO que refere, incluindo a sua história pessoal e familiar, é uma coisa. Respeitável, e que li com respeito. Outra coisa é a resposta ao meu comentário de resposta ao seu, relativamente à atitude de Passos Coelho. O que é que Passos poderia fazer? Poderia - e recordo que "a nega" de Passos ocorreu em Março de 2014 e que os problemas eram, se não públicos, pelo menos conhecidos nos meandros dos poderes (denúncias de Ulrich, PQP, e mesmo Riciardi) pelo menos desde Setembro do ano anterior -, e deveria chamar o governador do BP e explicar-lhe, já que ele não queria perceber, que o homem não poderia ficar nem mais um minuto à frente do Banco. Sabendo o que sabia, teria que saber que fechando a porta que Salgado lhe pedira para abrir, sem mais nada, lhe estaria a dizer para ele acelerar o seu roubo. Era essa a sua obrigação. O que Passos fez, e que hoje tanta gente, incluindo o António, exalta, foi fazer como Pilatos: lavar as mãos. E deixar as de Salgado livres para criar o monstro que criou. Tudo teria sido diferente se Salgado tivesse sido destituído em Março.
ResponderEliminarIsso teria de ser feito em 2009. O MP pelos vistos diz agora que o BES faliu 5 anos antes do colapso, o que bate certo com Salgado não querer ajuda. O monstro não foi criado entre a nega e o colapso. E quando foi criado o PM era outro.
ResponderEliminarMas tudo bem, o governador do BdP devia ter sido avisado - apesar de, na teoria, ter mais obrigação de saber do que qualquer outro. De certeza que não foi?
Quanto a destituír Salgado, como é que um ministro pode destituír um CEO? Isso não é prerrogativa dum concelho de administração, ou dos accionistas? Não era um banco do estado e não estava intervencionado.
É como o caso EDP, como é que um juiz pode suspender um mandato? Pode até mandar prender o sujeito, mas na orgânica da empresa não deveria poder tocar.
No caso de Salgado, cabia ao BdP retirar a idoneidade, o que não foi feito. Não a tempo.
Não sei se um PM pode destituír o governador do BdP. Se não pode, e se este não fez nada, não há muito mais a fazer.
Nesta sala não se fala muito disso.
ResponderEliminar