sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Abanões*

Uso obrigatório da app StayAway Covid divide constitucionalistas - TSF


 


Já ultrapassamos a barreira dos 2 mil infectados por dia, e é a própria ministra da saúde a dizer-nos que estamos a poucos dias de chegar aos 3 mil.


Terá sido isso a fazer sentir ao primeiro-ministro “que era preciso haver um abanão”, palavras com que, numa entrevista ao Público, terá tentado justificar, mais que a declaração do estado de calamidade, algumas medidas altamente controversas com que fez acompanhar essa declaração.


Provavelmente muita gente estará de acordo que é preciso um abanão. E às vezes, momentaneamente, os abanões funcionam. Mas não resolvem nada que passe desse momento, no essencial deixam tudo na mesma. E podem até resultar num empurrão para o desconhecido. Incontrolável.


A ideia de tornar obrigatório o uso de máscara sempre que no espaço público não estejam garantidas as condições de distanciamento entre as pessoas é tolerável. Trata-se de impor o uso de um meio de protecção através da lei, e não é nada de novo. Pelo contrário, para trás há toda uma história de instrumentos de protecção que hoje damos por inquestionáveis, mas que apenas entraram nas nossas rotinas porque tiveram força de lei.


Já a ideia de obrigar a instalar um determinado software no telemóvel de cada um não lembraria a ninguém. A não ser nos regimes totalitários da China ou da Coreia do Norte. Uma coisa é fazer uma campanha, como o primeiro-ministro de resto já tinha feito, para convencer as pessoas a usarem uma aplicação – uma app, como se diz – de livre vontade. Outra é fazer uma lei a obrigar ao seu uso!


Isto não é um abanão. É um empurrão para o escuro. E é, do ponto de vista da democracia e da liberdade, o absurdo. É absurdo no plano dos princípios, porque ofende direitos e liberdades individuais, e é absurdo à luz da realidade porque, no limite, obriga todas as pessoas a possuir equipamentos capazes de receber a aplicação. É uma impraticabilidade, e a impraticabilidade é desde logo absurda. Se seria absurdo obrigar todas as pessoas a usar telemóvel, fosse a que pretexto fosse, mais absurdo será obrigar todas as pessoas a disporem os telefones inteligentes – smart phones, como se diz – que muitas nem sabem usar.


Polícias a vigiar o uso dessa aplicação, e polícias a poder entrar em casa dos cidadãos sem mandato judicial, são apenas dois dos pesadelos deste inaceitável empurrão para o escuro.


Esperemos agora que, no Parlamento, a oposição dê um valente abanão ao governo, e enterre de vez esta ideia absurda e perigosa.


* A minha crónica de hoje na Cister FM

18 comentários:

  1. O PM teve um sonho, decidiu pô-lo em prática.
    Espero que o abanem bem.

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  2. Parece que a brilhante ideia foi chumbada no parlamento. Calhou, podia muito bem ter passado, partidos que nada têm contra a China calharam a votar contra.
    Péssimo é ter sequer aparecido a proposta. Como muito bem nota, os detalhes da aplicação e fiscalização entrariam num caminho muito mau. Mas dá uma idéia do que temos como governo. Para quem ainda não tenha percebido.
    Há tantos anos que muitos já esqueceram, este governo criou um adicional ao ISP porque o crude estava barato demais e o fisco não conseguia arrecadar o pecúlio do costume. Assim que o crude subisse dos 30 usd o barril, o adicional seria retirado. Nunca foi.
    Isso leva-me a desconfiar muito de medidas “temporárias”.

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  3. "e polícias a poder entrar em casa dos cidadãos sem mandato judicial, são apenas dois dos pesadelos deste inaceitável empurrão para o escuro."
    Se me permite, isto é o que um título da capa do Correio da Manhã sugere, mas todos sabemos como é aquele "jornal", portanto não tem mal nenhum. No entanto, lendo o conteúdo da "notícia", vê-se que ela não corresponde ao título, o que também não é novidade.

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  4. https://24.sapo.pt/opiniao/artigos/stayaway-ideias-parvas

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  5. NÃO PASSARÁ
    O Dr. Costa pretende obrigar-me a meter uma aplicação do seu agrado no meu telemóvel?
    E se eu não tiver oferece-me um?
    Tenha juízo!
    Diz que não pretende ser autoritário mas pratica sem decoro essa
    enormidade desavergonhadamente!
    Não lhe deixo meter o nariz nos meus equipamentos pessoais adquiridos a prestações mas sem subsídios.

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  6. Eu só gostava que alguém me explicasse porque é que 2000 ou 3000 infectados é grave?
    Houve alguns testes a assintomáticos da gripe o ano passado?
    Eu quero ver se quando a ministra da saúde aceitar os hospitais privados na "luta " contra a covid, esta histeria acaba.

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  7. Não perceber a diferença entre mandado judicial e mandato, é a mesma coisa que não perceber a diferença entre quotas e cotas!
    Como vejo constantemente replicados estes equívocos, tanto nos jornais como nas televisões , julgo ser altura de dizer basta! Já não é equívoco, é ignorância!

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  8. Estes termos e não só! Os verbos invocar e evocar também se confundem recorrentemente.

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  9. Parece-me que está a ser bem abanado. Vamos a ver se acorda, ou se acha que está a ser embalado.

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  10. Não. Não foi ainda chumbada. E só o será, porque Rui Rio, que começou por dizer que apoiava a ideia, vai ter de fazer marcha atrás.

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  11. Claro que não passará!
    Mas fica a tentativa. E é bem possível que fique também a tentação.

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  12. É grave, mesmo que ainda ninguém lho tenha explicado. Ou o Carlos não tenha percebido. Mas percebo essa sua "expectativa" sobre o lóbi dos hospitais privados.

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  13. E estar "sobre pressão"? Nas televisões oiço isto quase todos os dias.

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  14. Sobre a App, logo á partida o próprio Nome foi mal escolhido, "Stay Away Covid"!? Talvez se lhe chamassem "Go Away Covid", Vai-te Embora Covid pudesse fazer mais sentido! De qualquer maneira, Ficar Longe foi coisa que ele nunca ficou, se veio da China até cá, e está agora em Todo Mundo, a Fuga parece ser Impossível. O Dinheiro que se gasta assim em tentativas de Minimizar um Problema destas Dimensões, deveria estar a ser gasto no Desenvolvimento de Novos Medicamentos e numa Vacina, e não em Meios Virtuais que nada podem fazer para Combater e Parar de facto uma Pandemia.

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  15. A única forma de aceitar os hospitais privados é nacionalizando-os.

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  16. Vamos ver quanto vai custar ao erário público cada tratamento covid num hospital particular.

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  17. Ninguém me explicou, talvez porque ninguém saiba explicar porque é que uma média de 10 mortes dia por covid é mais grave que uma média de 10 mortes dia por gripe.
    Dados de Outubro de 2019, 3300 mortes por gripe.

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  18. Se estão tão preocupados com os custos dos hospitais privados porque é que não acabam com a ADSE? Afinal os funcionários públicos são os maiores clientes dos hospitais privados! Que contradição mais estúpida!

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