quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Há 10 anos

10 anos como professor – HOJE! | EvangeBlog


Marcação é seguramente palavra do futebolês com mais homófonas.


Há a marcação do campo, melhor, as marcações do campo – porque marcação do campo era aquilo que nós fazíamos para reservar o aluguer de uma campozito qualquer para as nossas peladas de fim-de-semana – que são as quatro linhas que limitam o espaço do jogo, o meio do campo e as áreas: as grandes e as pequenas. Normalmente só ouvimos falar delas no Inverno, quando chove a bom chover e as quatro linhas mais parecem limitar uma piscina que um campo de futebol. Quando não percebemos porque é que uns tipos andam ali a divertir-se à brava a fazer aquaplaning, é porque as marcações estão visíveis. É esse o critério dos árbitros para interromper ou deixar prosseguir um jogo que toda a gente vê que não é jogo nenhum!


Há ainda a marcação entendida como atitude de vigilância sobre o adversário, mas também a marcação como cobrança. Não a cobrança de dívidas – que está pela hora da morte e é hoje em dia umas das tarefas impossíveis que muitos temos pela frente –, nem sequer a cobrança de impostos – a primeira e mais primitiva função do Estado e, diria eu, a única que este governo sabe levar a peito – mas a cobrança do futebolês: a cobrança das faltas, ou a cobrança dos cantos: a marcação da falta ou a marcação do canto. Ambígua e estranha, como convém em futebolês. Porque o jogador só pode marcar a falta se o árbitro a tiver marcado. Como o canto: o jogador só o poderá marcar depois de o árbitro o ter marcado! Pois é, agora marcar é apenas assinalar…


Naturalmente que o jogador só pode cobrar a falta assinalada pelo árbitro. Assinalada para punir uma falta cometida pelo jogador adversário por excessos cometidos na marcação. Ou seja, para confundir um bocadinho: um jogador marca a falta depois da falta ser marcada pelo árbitro; o árbitro marca a falta depois de um jogador fazer falta ao marcar o jogador adversário.


Às vezes não faz falta o jogador fazer falta. Outras faz mesmo falta o jogador fazer falta, como já vimos aqui na falta cirúrgica.


Mas agora também não faz falta falar da falta para falar da marcação. Porque, como aqui há uns anos (lembram-se?) havia vida para além do défice (haver havia, mas viu-se no que deu!), também há mais marcação para além da marcação da falta.


Até porque há marcação à zona e a marcação homem a homem, por muito pouco jeito que isso dê no futebol feminino. A marcação em cima, que nada tem a ver com a marcação apertada! Pode impor-se uma marcação apertada sem estar sempre em cima do adversário. Sem o deixar respirar. Seguindo-o pelo campo todo, para todo o lado: até para a casa de banho!


Há treinadores que dão ordens desse género: sempre a morder-lhe os calcanhares (e às vezes muitas outras coisas) – “ele tem que sentir a tua respiração”. “Nem um palmo lhe podes dar”!


Deve ter sido isso que, em tempos, o treinador do Benfica dizia ao João Pinto: “marca bem em cima do Paulinho Santos, a um jogador desses não podes dar um palmo”! Depois, enfim e como se sabe, o coitado do Paulinho Santos (só o nome diz tudo!), farto de apanhar com o bafo do malandro do João, foi obrigado a reagir: de uma vez partia-lhe o nariz, da outra os dentes… Só não continuou a partir-lhe mais partes do corpo porque o João Pinto foi para o Sporting e, como se sabe, entre o Porto e o Sporting as marcações são bem mais leves!


A marcação à zona conheceu há uns anos atrás uma nova variante: o autocarro, nome de baptismo atribuído por Mourinho. Um padrinho famoso que mantém com o afilhado uma relação ambígua de amor e ódio. Detesta-o nos outros mas adora-o quando é seu. Como há perto de um ano, quando o utilizou em Barcelona parecendo-lhe uma limousine de alto luxo!


marcação das faltas também não vive os melhores dias, já para não falar das que são acompanhadas de cartão. Como no Dragão, na semana passada, quando o árbitro despachou o Coentrão. Ou ainda no domingo passado, em Setúbal quando, ao minuto 90, um tal de Cosme Machado tinha marcado 23 faltas ao Benfica e apenas 8 ao Setúbal: o triplo, dá para acreditar?


marcação de livres, cantos, de bolas paradas em geral é cada vez mais decisiva no futebol actual. O Benfica trabalha bem essas marcações: é raro o jogo em que não lhe rendam pelo menos um golo! A marcação de penaltis é que não é assim tão bem trabalhada. Sabe-se que não é necessário: os árbitros não os marcam. Mas depois, quando para uma qualquer prova secundária lá aparece um árbitro a marcar um ou outro, não se venham queixar…


Vejam o exemplo do Porto: não falha um! É precisamente o contrário do Benfica: os golos de bola parada são todos de penalti. Nem precisam de trabalhar as outras marcações!

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