José Sócrates surgiu-nos ontem à noite em plena campanha eleitoral. E confesso que me deixou baralhado: fiquei por momentos sem perceber se aquilo a que tinha assistido era o momento zero da campanha para as próximas eleições, se era mais um número do mestre do bluf ou ainda se não passaria de mais um episódio da esquizofrenia acelerada que tomou conta destes últimos dias do governo.
As palavras de Teixeira dos Santos, hoje em Bruxelas, apontam para dar mais crédito a esta última hipótese. Vêm-nos à memória aquelas imagens daquele ministro de Saddam quando os americanos ocupavam Bagdad…
Mas também não me custa muito admitir o três em um: o completo desfasamento da realidade, aliado à irreprimível tentação do jogo, sem descurar a possibilidade de ser o primeiro a reagir ao tiro de partida da campanha!
Anunciando bem cedo a comunicação ao país para a hora dos telejornais Sócrates, como tanto gosta, criou o suspense! Houve até quem pensasse – ou até quem receasse, sabe-se lá – que iria apresentar a demissão do governo. Santa ingenuidade: como se isso fosse alguma vez possível, como se Sócrates não estivesse mais agarrado ao poder que as lapas agarradas às rochas, resistindo às sucessivas, cadenciadas e violentas batidas das ondas.
Depois foi a comunicação – que era sem perguntas e passou a ser com perguntas - melhor - com respostas. Com as respostas que quis dar, independentemente das perguntas – ao melhor jeito do que será o argumentário de campanha e o desafio: vá derrubem-me! Um desafio com ar fanfarrão: vejam lá se têm coragem! E com encontro marcado para a Assembleia da República, na discussão do PEC. Deste novo PEC!
E houve logo quem se assustasse: “agora quem quer eleições é o PS” disse, por exemplo, Pacheco Pereira!
Como ontem aqui escrevia agora cada um tem que pedalar a sua bicicleta. Já não há nada a esperar: nem esperar que Sócrates se demita, nem esperar que seja Cavaco a ter as dores do parto, nem esperar por melhores momentos. Não há tempo para mais calculismos – utilizando a linguagem do futebolês, o jogo partiu!
Ainda bem, digo eu! Isto já não dá para mais…
O diabo é se Mário Soares estiver enganado quando diz (hoje no DN) que “Sócrates cometeu erros graves … que lhe vão sair caros”. O diabo é mesmo se, depois de nos terem saído caros a todos, ainda vão acabar por não lhe sair a ele!
Mas esse é um risco que agora não podemos deixar de correr!

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