
A tragédia entrou-nos porta dentro pelas televisões, num domingo à noite. A ponte de Entre-os-Rios caíra e o Douro engolira um autocarro com 53 pessoas e dois carros, com seis. Regressavam a casa, em Castelo de Paiva, depois de um passeio de domingo, que acabava numa das maiores tragédias nacionais deste século, então acabado de chegar.
As notícias começaram a chegar a conta-gotas, até se tornarem numa torrente semelhante à do rio que dias a fio encheu os ecrãs das televisões, que ali assentaram arraiais em directos em permanência, mais para transmitir um espectáculo de dor que para informar. O costume, já era assim há vinte anos.
As operações de resgate de corpos e viaturas, prolongadas por vários dias, foram transformadas noutro espectáculo televisivo, pleno de suspense. Ficamos a conhecer os sonares, e oficiais da marinha que viravam vedetas do pequeno ecrã, ora autênticos cientistas, ora mestres da investigação criminal. Primeiro o autocarro, depois um corpo, e outro, e outro... Dias a fio, até que fosse o mar a devolver mais alguns. No fim faltavam 36. Trinta e seis corpos que nunca mais foram encontrados, acrescentando mais dor à dor colectiva desta tragédia.
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