O prometido é devido e, antes que se faça tarde, vamos ao sistema. Como já avisei não é nada fácil de definir: desde logo porque muitos dizem que o sistema não existe! Para se perceber bem a dificuldade basta dizer que enquanto uns negam a sua existência – e ninguém consegue definir uma coisa que nem sequer existe – outros, os que garantem que existe, que está vivo e bem vivo e que até sabem bem o que é, quando chega a hora de o identificar – que é como quem diz, de o definir – nada! É o sistema, é o sistema mas não saem dali!
Quem foi mais longe nesta difícil tarefa de definir o sistema foi Dias da Cunha, o antepenúltimo presidente do Sporting (antepenúltimo porque o actual é o actual, não é o último presidente do Sporting). Mesmo com esse mérito não conseguiu mais que apresentar duas caras: as caras do sistema, disse com todas as letras, “são Pinto da Costa e Valentim Loureiro”!
Repare-se: ele não disse que o sistema era Pinto da Costa e Valentim Loureiro, disse que estes eram os rostos do sistema. Podem portanto tirar o cavalinho da chuva: também não irei ser eu a defini-lo!
Se ninguém o conseguiu por que haveria de ser eu a fazê-lo? A modéstia é como o cuidado e os caldos de galinha: não faz mal a ninguém!
Mas há aqueles dois nomes que Dias da Cunha mandou para esta fogueira. O que é lhes haveremos de fazer?
Claro que deles ouvimos muitas estórias. Umas contadas por aqui e por ali, outras escutadas mesmo. E que acabamos todos por ouvir: uns - onde me incluo – por não resistirem à chamada espreitadela pelo buraco da fechadura (expressão que usam, para tentar tapar o sol com a peneira, aqueles que gostariam que fossemos todos iguaizinhos aos que absolvem tudo e todos e aos que programam uns fins-de-semana fora, ali mesmo na Galiza,), outros porque foram as escutas que se lhes atravessaram à frente. Dizem eles, que não são nem coscuvilheiros nem de intrigas!
Fosse o Octávio Machado e diria: “vocês sabem do que é que (de quem) estou a falar”!
Da mesma forma que não há fumo sem fogo também, havendo as caras do sistema, não pode deixar de haver sistema. Seja lá o que for: seja impor os titulares dos órgãos que decidem, nomeiam ou influenciam, seja ocupar lugares e funções estratégicos, seja mandar na arbitragem ou tão simplesmente tratar bem os homens do apito, com fruta ou com viagens. Ou dispor de um exército de jogadores e distribuí-los pelas mais variadas equipas que disputam a mesma competição. Ou assinalar treinadores e colocá-los em equipas amigas, como naquelas mesas de restaurante com a sinalética de reservada!
Seja ou não uma combinação de habilidades e espertices com algumas (muitas) pulhices, umas toleradas pelo chico-espertismo nacional e outras protegidas pela negligência e pela corrupção.
Se o sistema é isto as caras do sistema já não são o que eram: Valentim Loureiro praticamente desapareceu de cena, obrigado a abandonar a Liga, e com o Boavista, já depois da sucessão dinástica que havia promovido, atirado para fora dos escalões do futebol profissional. Já Pinto da Costa, ressuscitado por uma Justiça suspeita que não aceitou provas que toda a gente percebeu que provavam tudo, regressa ao seu melhor nível, como se viu no arranque da época passada e como se confirmou esta semana, a provar que, para além de cara do sistema é o melhor gestor do futebol em Portugal.
Não sei se foi ou não apanhado de surpresa ou enganado pelo André Villas-Boas. O que sei é que convenceu toda a gente do contrário, que a troca do Porto pelo Chelsea pelo treinador tão portista quanto ele era coisa que previa já há um mês. E que por isso já tinha tudo tratado com o anterior adjunto, a ponto de o confirmar como treinador principal logo que do banco lhe confirmaram os 15 milhões da cláusula de rescisão. Pode não ter sido assim, mas convenceu toda a gente que foi assim!
E transformou uma ameaça – todos os comentadores eram unânimes em declarar um Pinto da Costa de calças na mão – numa oportunidade. Na oportunidade de reafirmar a sua capacidade de gestão e de marcar a diferença para a concorrência. Surpreendeu ao apostar no treinador adjunto, coisa que em Portugal e em particular nos grandes não é comum e, com isso, resolveu de imediato o problema como se há muito estivesse previsto.
Não faço ideia se o ex-adjunto Vítor Pereira é treinador para o Porto: não o conheço de lado nenhum! Mas Pinto da Costa conhece-o: já o conhecia de uma anterior passagem pelos juniores, ao ponto de o fazer incluir na equipa de Villas-Boas, e acompanhou o seu trabalho no último ano. Reconhece-lhe certamente competência, que é o essencial. O resto é com ele! E com o sistema…
Para já, sem o treinador maravilha e sem os dois ou três jogadores que o homem que abandonou a cadeira de sonho vai levar, fica com os cofres a abarrotar!

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