segunda-feira, 21 de junho de 2021

Há 10 anos

O retrovisor da vida: olhando para trás e vendo coisas boas


A bomba armadilhada – a imagem que há dias aqui trouxe para caracterizar o sarilho em que Pedro Passos Coelho se meteu com aquele convite a Fernando Nobre – acabou por explodir em ambiente de explosão controlada às mãos da nova Assembleia da República, para o efeito transformada numa espécie de brigada de minas e armadilhas.


Chamo-lhe explosão porque a bomba existia, estava lá, e explodiu mesmo. Não há dúvida que o que parece é – esta é uma velha verdade da política – e a humilhação – as coisas têm de ser chamadas pelos nomes – a que Fernando Nobre se sujeitou, com duas tentativas derrotadas de eleição, é uma derrota política de Pedro Passos Coelho, mais do que do PSD que, como ficou demonstrado, não estava absoluta e totalmente entusiasmado com o compromisso público do seu líder. Mas esta era uma explosão anunciada que, como todas as explosões anunciadas, permite limitar os danos: a derrota, afinal, existe pelas simples razão de parecer que existe!


Na realidade não há sequer derrota nenhuma de Pedros Passos Coelho. Neste episódio, apesar da opinião contrária de todos os analistas oficiais e comentadores do regime, Passos ganhou em toda a linha. Porque, conforme já aqui perspectivava na semana passada, teve oportunidade de aparecer aos olhos dos portugueses como um homem sério e cumpridor. Em quem se pode confiar porque não trai os seus compromissos. Mas também mostrou que não é oportunista, nem daqueles que não olham a meios para atingir fins.


E isto sempre foi muito valorizado no processo de avaliação política. Mas hoje é-o mais ainda: nesta altura, em que acabamos de chegar de um trajecto de seis anos com um primeiro-ministro que lidou muito mal com todos estes fundamentais traços de carácter, e em que a credibilidade e a confiança nos políticos bateu no fundo, os portugueses valorizam-no ainda mais.


Tudo isto credibiliza ainda aquela ideia de mudança que Pedro Passos Coelho quer associar a si próprio. A mudança em que os portugueses têm de acreditar para poderem estar com o governo nestes, pelo menos, dois anos dramáticos que aí vêm. Mas também a mudança na forma de fazer política, de comunicar e de se relacionar com os eleitores.


Ora o que é isto se não uma vitória?


Mas poderemos ainda, embora já claramente no domínio especulativo, admitir que Passos Coelho estava, neste processo, refém da sua palavra e claramente consciente do sarilho em que, fosse por que razão fosse, bem cedo se meteu. Que tinha já nítida a noção que o exercício da presidência do parlamento poderia tornar Fernando Nobre em alguém, a prazo, muito incómodo para si, para o partido e até mesmo para o país.


Fernando Nobre, ao recusar abrir uma escapatória para Passos e insistir em levar a sua odisseia até ao fim, cometeu suicídio político. Ora, à luz daquela tese, isto é não ou não é uma vitória?


Quando as coisas correm bem correm mesmo bem. E esta foi uma explosão que correu bem!


O estado de graça – que os analistas encartados dizem que este governo não irá ter – faz-se também deste tipo de coisas…

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