Uma semana depois do seu início cá chega o Tour. O 106º Tour de France!
Tem vantagens, trazer cá a corrida uma semana depois. A maior é evitar aquela coisa sempre obrigatória à partida de avançar com prognósticos, de falar de favoritos e de expecativas. Nem teria que ser exactamente assim, até porque o normal, nestas corridas de três semanas, e em particular no Tour, a primeira semana é para aquecer os motores, que as bicicletas não têm. Supomos. Aquela história dos pardais e do primeiro milho.
Pois, desta vez não é assim. O fim da primeira semana do Tour coincidiu com a chegada aos Alpes e, coisa nunca vista, com o vencedor encontrado. É que esta primeira semana teve de tudo.
Teve as quedas. Muitas. E logo na etapa inicial, faz hoje uma semana, uma decisiva, provocada por uma senhora que quis mostrar o cartaz que trazia nas mãos às câmaras de televisão. Foi naturalmente encontrada e entregue à Justiça. Foram muitas as vítimas, algumas ficaram desde logo fora de prova. o esloveno Roglic, o segundo do ano passado, e o grande rival do seu compatriota Pogacar, o miúdo de 22 anos que já ganhara há um ano, ficou em mau estado, e não mais recuperou. Está afundado na classificação a muito mais de meia hora do seu compatriota.
Teve o regresso de Cavendish, o temível sprinter. E já ganhou duas etapas. Teve a surpresa do estreante Mathieu Van de Poel, neto do mítico Poulidor, o eterno segundo, e a prova que o segundo nem sempre é apenas o melhor dos últimos, e que trouxe a camisola amarela vestida durante quase toda a semana. Só a despiu hoje.
Teve um contra-relógio, na quinta etapa, onde Pogacar voou, e mostrou desde logo que era, de longe, o melhor., mesmo que ainda deixando a amarela no corpo do neto de Poulidor, que até é holandês (neerlandês, diz-se agora), como se depreende do seu apelido, colado ao nome francês.
Teve, ontem, na maior etapa da competição, e uma das maiores de sempre, com os seus quase 250 quilómetros, entre Vierzon e Le Creusot, a surpresa de uma corrida esfrangalhada, com uma fuga numerosa que incluía o próprio camisola amarela. E que levou nomes grandes, como Froome, mas muitos outros, a perderem tempo na casa dos 20 minutos. E o próprio Pougacar a perder cerca de 4 minutos, numa etapa ganha pelo também esloveno Matej Mahoric.
E teve, hoje, a primeira das duas alpinas, entre Oyonnax e Le Grand-Berand, um espectáculo chamado Pogacar, que simplesmente fez o que nunca se vira fazer, e arrumou com as dúvidas quanto ao vencedor. Sem qualquer dos imponderáveis que fazem parte do ciclismo, Roglic ganhou o Tour na primeira semana. Bastou-lhe um contra-relógio e a primeira etapa de montanha!
Vale a pena contar. Na segunda das três subidas de primeira categoria da etapa, quando seguia no primeiro pelotão - um segundo já se havia formado até aí - a mais de 4 minutos da frente da corrida, e com uns trinta corredores na frente - se não mesmo mais - o jovem esloveno atacou a corrida, Apenas o equatoriano Carapaz respondeu, e colou-se-lhe, de imediato. Por pouco. Resistiu ainda a um esticão do esloveno, mas já não teve resposta para o segundo ataque.
A partir daí foi seguir montanha acima, num ritmo diabólico, mas tranquilo. Foi passando um a um todos os que encontrava, que se limitavam a olhar para o ver passar, tranquilamente sentado na bicicleta. Terminou a montanha, e logo a seguir a terceira. No mesmo ritmo passando toda a gente, uns atrás dos outros, e ganhando minutos aos principais adversários, que já ninguém sabe bem quem são. Quando chegou ao cimo tinha passado trinta - talvez mais - corredores, e já só tinha ali à frente o belga Teuns, a escassos metros. Mais 50 metros a subir e ficaria para trás.
A subida acabara, e faltava descer nove quilómetros até à meta. Nove quilómetros de curvas e mais curvas, numa estrada encharcada. Teuns tinha uma etapa para ganhar, e uma oportunidade única. Ou pelo menos muito rara. Pogacar já ganhara o que queria ganhar, e tem uma vitória para repetir em Paris. Teuns arriscou na descida. Pogacar cuidou-se, e deixou-o ir. Cuidou-se tanto que permitiu que se lhe juntassem o espanhol Izaguirre e o canadiano Woods, que fizera boa parte da etapa na frente.
Na meta vestiu naturalmente a amarela. E tem Uran a 5 minutos, Carapaz a mais, Nibali a 22, Roglic a 40 e Garaint Thomas e Froome a muito mais de 1 hora.
Sobre os portugueses, Rui Costa e Rúben Guerreiro, não há grandes coisas para dizer. Rui Costa é 111º a mais de uma hora de Pogacar; Rúben Guerreiro tem feito melhor - é 46º, a puco mias de 36 minutos.
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