Ir mais longe que a troika é uma expressão que entrou no nosso quotidiano, passamos a ouvi-la com tanta frequência que é como que já faça parte da família. Foi entrando gradualmente nas nossas vidas e temos agora a obrigação de a conhecer em toda a sua profundidade.
Foi o governo quem tratou de a fazer chegar até nós quando, pouco depois de tomar posse, começou a dizer-nos que teríamos de ir mais longe que a troika. Começamos logo a perceber que isso era o eufemismo de vamos ser mais duros, vamos exigir-vos mais sacrifícios do que aqueles de que estão á espera. Não foi preciso nada para percebermos de imediato a coisa: veio logo a metade do subsídio de Natal e ficamos esclarecidos!
Nem tanto. Se percebemos que era irem-nos mais fundo aos bolsos, ficava ainda muito por perceber, até porque, de seguida, surgiu a tal do desvio colossal que ninguém entendeu. Nem mesmo depois daquela explicação do ministro Gaspar, a mudar a posição do colossal como se fosse uma peça de um puzzle.
Depois, bem depois, quando ressuscitou e começou a falar, seria o PS a dizer que não contassem com eles para ir mais longe que a troika. Tudo até à troika, nada para além da troika!
Os mais bem-intencionados de nós começamos a pensar que talvez fizesse algum sentido. Os governos gostam de fazer o mal todo logo no início dos mandatos, para deixar para o fim alguns doces que lhes garantam a reeleição. Talvez o governo queira entrar já a matar para encurtar caminhos e, em vez de levarem três anos a resolver esta coisa, a queiram resolver em dois, ficando a restante metade do mandato para levantar a moral e alargar um pouco a silhueta do pagode. Coisa que ao PS não poderia agradar, preferiria evidentemente que o governo levasse todo o mandato a aperrear-nos a barriga para que as eleições lhe pudessem correr bem.
Não tivemos muito tempo para validar esta tese estratégica de médio/longo prazo de uns e de outros. Também já deveríamos saber bem que nisto de pensar à distância eles nunca deram grandes provas. Nem mesmo quando o tema é eleições!
Começaram a sair os esqueletos dos armários – sector público empresarial, mais BPN, mais umas facturas escondidas numas gavetas de um instituto qualquer e … Madeira, e depois, ainda mais Madeira e ainda a Madeira que há-de estar para vir – e percebemos, finalmente, o que era ir mais longe que a troika.
Temos que ir mais longe que a troika porque, provavelmente num dia de forte nevoeiro – à espera do D. Sebastião – alguém lhe disse que o caminho terminava ali, que para a frente não havia mais nada. Mas D. Sebastião não regressou – se anda há quatrocentos e tal anos para regressar por que raio haveria de escolher precisamente esta altura – e, porque Portugal é um país de sol, o nevoeiro foi levantando e deixando à vista o resto do caminho: mais longe que a troika!
Mas a história não acaba aqui. Não acaba quando desvendamos o mistério e percebemos que ir mais longe que a troika é uma história de esqueletos. A parte de verdadeiro terror da história, mais do que esqueletos, caveiras e lençóis brancos, mete gente exausta, sem ãnimo e sem qualquer reserva energética para prosseguir. Que não consegue ir mais longe e começa a mandar uns papéis – talvez dobrados em forma de aviõezinhos – para fazer o resto do caminho.
Pois é, sãos os fundos de pensões dos bancos – já nada mais resta para a maquilhagem, Bagão Felix, Manuela Ferreira Leite e Teixeira dos Santos já gastaram tudo o que havia no camarim - a fazer o resto do caminho. Porque a meta – o fim do caminho – é para cumprir, garante o governo. Não diz é que é desta maneira!

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