segunda-feira, 14 de março de 2022

É o que é

Almeirim de portas abertas a refugiados ucranianos


Vi há pouco, numa das televisões, imagens da recepção a duas crianças refugiadas ucranianas numa escola em Itália. Eram apenas duas, as crianças ucranianas e toda a comunidade dessa escola - de crianças a educadores - a recebê-las com palmas, numa manifestação impressionante.


Não faço ideia do que terá passado pela cabeça daquelas duas crianças, mas não me é difícil imaginar o conforto que terão sentido, depois da dolorosa experiência a que foram sujeitas, serem recebidas daquela forma, naquele local desconhecido a que acabavam de chegar, à entrada daquelas portas que cruzavam pela primeira vez. Será certamente uma imagem que jamais apagarão da sua memória, que provavelmente se sobreporá a tantas outras, de angústia e sofrimento, que as marcará para sempre.


São imagens que impressionam. Mais pelo tributo, pelo reconhecimento do estatuto de heróis a estes refugiados da guerra, já que a solidariedade com os ucranianos está a ser amplamente documentada todos os dias, por toda a Europa. Em contraste absoluto com tudo o que conhecemos do nosso comportamento colectivo perante a onda de refugiados que tem chegado doutras partes do mundo, em particular à Europa, na última década. Que são igualmente pessoas, e que igualmente fogem da guerra, do sofrimento, da impiedade e da tirania.


Um contraste que se tem tornado em mais um ponto de clivagem nas sociedades europeias, e particularmente em Portugal. Até aqui era fácil dividir as ideias políticas, as sociedades e, em última análise as pessoas - cada uma - entre universalistas e humanistas, por um lado, e xenófobos e racistas, por outro. Entre os que defendiam a abertura das fronteiras aos deserdados do mundo, e os que lhas fechavam. Entre os que lhes defendiam o acolhimento, e os que levantavam arame farpado para impedir a sua entrada.


A solidariedade e o acolhimento aos ucranianos rompeu com esta divisão. Desde logo a partir dos países fronteiriços, onde o arame farpado era mais leve de levantar. E, depois, no tabuleiro político nacionalista, e até no claramente xenófobo e racista. 


Se não deixou de ser claro que boa parte da esquerda não ficou lá muito confortável no seu posicionamento perante a invasão russa, e a guerra, também não deixa de ser claro o seu desconforto com rompimento daquela linha divisória. Custou-lhe a perceber um fenómeno que deixava do mesmo lado quem antes estava do outro, e procurou a explicação na cor da pele e dos olhos.


Alguns poderão ter ficado satisfeitos com a explicação. Mas acredito que tenham sido mais os que não ficaram convencidos, e que terão percebido que a História, a civilização, a cultura e tudo aquilo que faz o que somos, e como vivemos, conta mais que simplesmente a cor da pele, dos olhos ou do cabelo. 


Perceber isso não é aceitar o racismo, nem a xenofobia. É simplesmente perceber que há modos de vida que se chocam. E que, isso, é o que é. E não o que gostaríamos que fosse!

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