Tive ontem oportunidade de participar numa experiência rara. Passo a contar.
O Carlos Alberto Jorge - o Berto para os mais próximos - é um homem que se confunde com as Grutas de Mira de Aire. É o Presidente do Conselho de Administração da empresa que as explora, e toda a sua vida foi feita nas - e para as - Grutas, que só por ele são hoje o que são. Nelas tem feito - e continua a fazer - experiências várias de exploração das condições únicas de profundidade, temperatura e humidade das grutas. Uma delas foi deixar por lá umas garrafas de vinho a ver no que dava, por acaso ou não - isso não consegui perceber - da Casa Ermelinda de Freitas.
Partilhou o resultado da experiência com o seu núcleo de amigos. Daí com a equipa do produtor de Fernando Pó, que logo acolheu a ideia de dar uma nova dimensão à experiência, com uma produção da colheita de 2015. A partir de uma selecção de castas nacionais e francesas - os pormenores técnicos não são para mim - a produção entrou em estágio de dois anos em barris de carvalho nacional e americano, e foi engarrafada em 2017. Dessa produção 12 mil garrafas seguiram para a profundidade das grutas, num processo que foi um misto de logística complexa e de aventura. As restantes seguiram o destino normal das suas caves.
A ideia era que as 12 mil garrafas permanecessem durante três anos de estágio em condições únicas de temperatura (constante de 17º) e humidade das grutas, de onde sairiam para o mercado para assinalar os 100 anos da Casa Ermelinda de Freitas, a comemorar em 2020. A pandemia trocou as voltas todas, e a tudo, e as garrafas acabaram por lá se manter por mais dois anos.
Ontem, nas Grutas de Mira de Aire, foi apresentado pela Drª Leonor Freitas e pelo Carlos. Chama-se "Grutas" e foi provado, em paralelo como o seu "irmão gémeo", de que se separou há cinco anos. Não sei muito de taninos e de outros polifenóis, nem tenho o mais apurado dos olfactos para estas experiências. Apenas gosto, ou não gosto. E quando gosto, do que gosto ainda mais. Gostei muito do Grutas. E se gostei mais dele do que do seu "irmão gémeo" que cresceu nas caves, é porque as grutas lhe deram qualquer coisa a mais no crescimento.
Não são muitas garrafas, e estão - irão entretanto estar - à venda apenas nas Grutas de Mira de Aire, na loja da Casa Ermelinda Freitas e no WineNot?, em Lisboa. Já não dá para repetir a experiência de ontem, mais a mais acompanhada das melhores iguarias de Mira de Aire e de Azeitão. Mas ainda dá para experienciar mais um dos belos vinhos que se fazem neste nosso país, um dos que melhor sabe fazê-los no mundo.

Sem comentários:
Enviar um comentário