
O debate do Estado da Nação que esta tarde ocorreu no Parlamento voltou, uma vez mais, a não passar de folclore, que não se esgotou no folclore de que Luís Montenegro acusou o primeiro-ministro.
É certo que António Costa abusou do folclore parlamentar. Sabe a música de cor, e não lhe falta coreografia. Mas também a oposição alinhou na dança, sempre às voltas e voltinhas sem nunca avançar para os reais problemas da Nação. E do país.
Não caberiam todos - tantos são - num debate deste tipo. Mas há problemas centrais, "estruturais" como dizem, que não podem estar ausentes de um debate deste tipo, sob pena do Estado da Nação nunca ser levado a sério. Se há problema "estrutural" central no país é o do investimento. É o investimento que faz girar tudo na economia e na sociedade. Sem investimento não há crescimento, não aumenta a produtividade, não se altera a estrutura económica do país e não se quebra o ciclo de empobrecimento do país e da população.
O resto ... é folclore!
O investimento é feito pelo Estado - investimento público - e pelos privados. O investimento privado é interno ou externo. Feito pelos cidadãos e pelas empresas nacionais, e pelos estrangeiros.
O investimento público vem de dezenas de anos de regressão, e não tem praticamente expressão. O investimento privado nacional, face à estrutura do tecido empresarial, à baixa capitalização das empresas, e a uma certa aversão ao risco, é muito baixo. O investimento estrangeiro produtivo parou na Auto Europa, já lá vão 30 anos. Daí para cá o o capital estrangeiro canalizou-se para investimento em turismo, em imobiliário e nas privatizações. Na simples aquisição de empresas com rendas garantidas, com grande capacidade de produzir dividendos.
Nada disto, como facilmente se percebe, altera as dinâmicas da economia portuguesa.
Perguntará o leitor: então e a basuca? Não é o PRR que vem dinamitar este estado de coisas?
Pois. Começaram por dizer-nos que sim. António Costa Silva fartou-se de o apregoar, mas hoje é ministro da economia e o que se vai percebendo é que tudo o que apregoou caiu em saco roto.
O PRR foi anunciado como destinado a grandes volumes de investimento. Em vez da lógica de distribuir dinheiro por toda a gente que sempre presidira à gestão de todos os fundos europeus, os largos milhares de milhões de euros que a União Europeia cá despejou nas últimas praticamente quatro décadas, para que tudo ficasse na mesma, anunciava-se que agora seria diferente. Que iria financiar as grandes alterações da estrutura do investimento e da economia.
O que imediatamente se começou a ver desmente tudo isso, e aponta para que o destino de mais estes largos milhares de milhões de euros seja o mesmo dos outros. Os mesmos actores entraram rapidamente em cena para tratarem que tudo seria o mesmo. Rapidamente se criaram consórcios de dezenas de empresas, orientados pelos consultores do costume, e logo surgiram projectos capazes de atingir os tais grandes volumes de investimento, distribuídos a preceito à medida das "tangas" de cada um.
A Espanha, aqui ao lado, canalizou o dinheiro para um projecto de construção de um veículo eléctrico, num investimento total de 24 mil milhões de euros. Para outro, de 7 mil milhões, no desenvolvimento de energias renováveis. E para outro, de 12 mil milhões, para a produção de chips. Tudo com o objectivo de se reindustrializar a partir das mais complexas e inovadoras indústrias, e de diminuir a dependência do turismo, Assim, simples e claro.
Por cá, pouco mais sabemos dos projectos do PRR que aquela coisa dos 40 milhões de euros para Mário Ferreira capitalizar uma das suas sua empresas.Ele, que até é alvo de processos por irregularidades com fundos europeus. Entre outras.
Curiosamente apenas este tema visitou este "Debate do Estado da Nação". Mais curiosamente ainda, o primeiro ministro achou a pergunta insultuosa!
Não será só folclore, mas também voltou a haver uma falta de nível na nova direcção do PSD.
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