
Terminou ontem, em Paris, a 109ª edição da Volta França, uma das mais espectaculares e bem disputadas de sempre e, seguramente, a que mais projectou os valores do desporto, e do desportivismo.
Faltava cumprir a última etapa dos Pirenéus, na última vez que aqui trouxera a maior competição do ciclismo mundial. E dizia então que, dada a qualidade da resposta de Vingegaard aos ataques de Pogacar, era previsível que a essa última etapa da cordilheira não fosse muito diferente das outras duas, e que o dinamarquês deveria ter assegurado a vitória.
Pois... Só não esperava era que Vingegaard a tivesse escolhido para fazer alarde de todo o seu enorme mérito na vitória que se perspectivava. Que tivesse decidido que chegara a hora de confirmar que é um campeão, e que a amarela que trazia no corpo há tantos dias, conquistada num dia mau de Pogacar, e defendida depois com enorme categoria, era sua por indiscutível mérito.
Pogacar sabia que que era nestes 143 quilómetros, entre Lourdes e Hautacam, que teria de apostar tudo para alcançar a terceira vitória consecutiva no Tour, que todos davam à partida por garantida. E atacou, como lhe competia. Uma, duas, três ... seis vezes. Como sempre antes, Vingegaard respondeu outras tantas vezes. Até seguirem os dois, sozinhos. Na última descida Pogacar sofreu uma queda, e deixou o adversário sozinho.
Na 15ª etapa, no domingo anterior, entre Rodez e Carcassona, tinha acontecido o inverso, e Pogacar não atacou. Não quis aproveitar a infelicidade do adversário. Desta vez Vingegaard nem precisava de atacar, bastar-lhe-ia seguir no ritmo que trazia para deixar o adversário para trás. Mas não o fez, e esperou por Pogacar, numa tão rara quanto nobre demonstração de desportivismo. E como foi bonito o cumprimento, e o reconhecimento, do esloveno no momento do reencontro!
Chegaram juntos ao início da subida do Hautacam, onde encontraram o não menos fantástico camisola verde, o belga Wout van Aert. E a meio da subida Vingegaard, que sempre só respondera, atacou. E foi-se embora até lá acima, ganhando mais um minuto, colorindo de mais brilho a sua amarela.
O contra-relógio de sábado, de mais de 40 quilómetros e com final em subida acentuada, que durante tanto tempo se julgou decisivo, serviu apenas para mais uma lição de desportivismo e camaradagem do novo campeão do Tour. Pulverizou todos os tempos intermédios mas, no fim, ao perceber que o melhor tempo permanecia no seu colega Wout van Aert, abrandou para fazer apenas o segundo melhor registo, e garantir a vitória na etapa, por 17 segundos, ao seu companheiro.
Ontem, na etapa da consagração, com Jasper Philipsen a vencer nos Campos Elíseos, Wout van Aert apenas se preocupou em festejar com a equipa. Não sem que, antes, ainda tivesse tido tempo para uma brincadeira com Vingegaard, ao simular uma fuga com Pogacar.
Que grande Tour. Que grandes ciclistas e enormes desportistas são Vingegaard, Pogacar e Wout van Aert!
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