
Vão a votos os dois maiores países da língua portuguesa. Angola, já hoje, e o Brasil, daqui a pouco mais de um mês.
Não se esgotam nestas particularidades da dimensão, da língua comum e do calendário, os paralelismos entre os dois actos eleitorais nestes países irmãos. Há mais!
Para além da língua têm em comum a debilidade da democracia e das instituições. Um enorme potencial de riqueza sucessivamente desbaratado, e uma insustentável desigualdade que desemboca na pobreza pornográfica da imensa maioria dos seus povos.
Têm ainda em comum neste processo eleitoral algo de macabro. Para Angola seguiu, daqui ao lado, o cadáver do anterior presidente e obreiro-mor do país e do regime, mais de dois meses depois da sua morte, e de despudorada disputa dos seus restos mortais. E para o Brasil seguiu, a partir do Porto, conservado em formol e formalidades bacocas, o coração do longínquo obreiro da independência, há 200 anos.
E têm ainda em comum nestas eleições o clima de suspeição sobre os resultados eleitorais que já está instalado nos dois países, e à forte probabilidade de não virem a ser aceites pelos perdedores. Não é exactamente uma novidade, e é o reflexo da debilidade da democracia nestas duas paragens da língua de Camões e Pessoa.
Há, porém, diferenças fundamentais neste comum clima de suspeição. Em Angola é levantado pela oposição e, pela História, com provável sustentação. E, acima de tudo, por quem não tem o poder das armas, o que faz toda a diferença nas suas consequências. No Brasil, ao contrário, é levantado por Bolsonaro, no poder. E com o poder das armas. E não só o das forças armadas institucionais, há ainda um Brasil armado que vai para além delas atrás de Bolsonaro.
No Brasil, Bolsonaro replica Trump, seguindo-lhe a cartilha à risca. Mas num país em que as instituições são bem menos consolidadas que as americanas.
São, por isso, bem menos aceitáveis, e muito mais preocupantes, as suspeições "à la carte" de Bolsonaro que as da oposição em Angola.
Não há nada em que Bolsonaro não imite Trump. Perdoai os burros que votaram nele que pelos vistos não sabem mesmo o que fazem.
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