
Correu-se hoje a 18ª etapa da Vuelta - provavelmente a mais espectacular desta edição - de média montanha, entre Trujillo e Piornal, na Estremadura, já sem Roglic. Que ficou fora da corrida no arranque desta terceira e última semana, anteontem, depois do último dia de descanso, na passada segunda-feira, depois de uma queda no final da 16ª etapa, em cima da meta, quando disputava o sprint para a vitória na etapa, confirmando-se como o mais azarado cilcista dos últimos anos.
Evenepoel furou - há até quem diga que simulou um furo, mas isso são as más línguas - 800 metros depois da entrada nos últimos três quilómetros, circunstância que o deixava a coberto de qualquer perda de tempo para o grupo principal, e Roglic atacou para lhe ganhar tempo e vencer a etapa. Inexplicavelmente caiu, a poucos metros da meta, e ficou bastante mal tratado, impedido de partir para etapa de ontem. Quando era segundo, a apenas 1´e 26´´, e parecia o único ciclista com condições para derrotar o jovem belga.
Esta etapa de hoje acabou por não provocar grandes diferenças na classificação, mas nem por isso deixou de ser uma corrida espectacular, a mais excitante desta Vuelta.
Ontem já João Almeida aparecera, e mostrara toda a qualidade que lhe é reconhecida. Não ganhou muito com isso, foi apenas 13º na etapa, ganha por Rigoberto Uran, à frente do grupo de 12 ciclistas que resistiu em fuga, e ganhou apenas 9 segundos aos da frente. Mas o ataque que desferiu na subida, nos últimos três quilómetros, deixando toda a gente para trás, foi uma demonstração do seu bom momento, já que a sua qualidade está mais que demonstrada. Hoje voltou a fazê-lo, com uma etapa extraordinária.
É certo que voltou a não ganhar muito com isso, foi décimo na etapa, e acabou até por perder 13 segundos para Evenepoel - que voltou a ganhar - e para Enric Mas, segundo na etapa. Mas acabou por ganhar algum tempo aos que lhe sucedem na geral, alargando diferenças, e ganhou um pouco mais de 1 minuto a Carlos Rodriguez, aproximando-se do seu quinto lugar, agora à sua mercê, a apenas 25 segundos.
A etapa começou mal, com uma queda que mandou para o hospital o jovem australiano Jay Vine, um dos maiores animadores da prova e virtual vencedor da montanha. E deixou bastante mal tratado o também jovem Carlos Rodriguez, que ainda assim resistiu heroicamente e conseguiu, numa etapa super disputada como foi esta, perder apenas 1´e 20´´ para os da frente. Hoje, com a ajuda da equipa - Ineos - resistiu. Amanhã, se conseguir ter condições para partir para a etapa, ou no sábado, dificilmente será.
Mas também com uma fuga, numerosíssima, com 41 corredores. Que foi ganhando tempo e mais tempo ao pelotão. João Almeida bem queria lá ter estado, mas é um dos mais vigiados do pelotão, e não lhe dão facilmente essas condições. Estava a fuga com 9 minutos de vantagem, e faltavam 85 quilómetros para a meta e três montanhas - na verdade apenas duas, o Alto del Piornal é que foi subido por duas vezes - para subir, quando atacou. Sozinho.
A partir daí foi uma corrida espectacular de João Almeida. Começou por fazer tudo sozinho, com dois colegas de equipa na fuga - o compatriota Ivo Oliveira e o espanhol Marc Soler. Primeiro, mas mesmo assim tarde para quem assistia à corrida, foi o seu compatriota a cair do grupo da frente para lhe dar uma ajuda. Fez o que pôde, e teve de deixar João Almeida de novo entregue a si próprio, subida acima. Que mesmo assim ia tirando tempo à fuga e mantendo, e às vezes até ganhando para o grupo dos principais da classificação. E nunca mais se via o espanhol, para a dar uma mãozinha. Acabou por aparecer à vista do corredor português, lá em cima, já no fim da segunda montanha, na primeira subida ao Alto del Piornal. Pareceu tarde, mas enfim... O espanhol deu mesmo uma boa ajuda, e acabaram por chegar juntos ao primeiro grupo da fuga inicial, já na derradeira subida, quando Soler encerrou o trabalho.
João Almeida não estava agora sozinho. Mas tinha sozinho de fazer todo o trabalho. Ninguém colaborou com ele. Ou porque não pudessem, ou porque não lhes interessava. E no entanto poderia interessar, desde que admitissem que poderiam chegar aos que de lá tinha saído e disputar a etapa.
E aos poucos, com os movimentações lá atrás na guerra da geral - todos atacaram, mas Enric Mas, e especialmente Evenepoel, deram espectáculo - o grupo acabou alcançado pelos primeiros da classificação, que acabou com tudo. Menos com João Almeida, que seguiu com eles. E eles eram todos os que estavam à sua frente menos o infeliz Carlos Rodriguez. A partir daí já só tinha a ganhar o que podia ser ganho - tempo ao quinto classificado.
O pódio ainda não estará descartado. E um lugar no top 5 está muito próximo. Seria bom que não fosse pela desistência do Carlos Rodriguez.
Evenepoel parece indestronável, mas nada está fechado até ao final da tarde de sábado. O último dia D. O D de domingo é F, de festa!
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