O governo entregará hoje o Orçamento na Assembleia da República, depois de não sei quantas intermináveis reuniões extraordinárias do Conselho de Ministros e de quilómetros quadrados de paredes rebocadas de tanto barro que foi atirado.
Temos assistido a muitas e pitorescas cenas à volta da apresentação de orçamentos: entregas atrasadas, quadros errados, mapas em falta… Um houve até que ficou conhecido como o Orçamento do queijo limiano. Nunca, no entanto, nenhum foi tão acidentado quanto este. E nunca nenhum outro foi tão fiel espelho da governação do país como este Orçamento para 2013!
Peguemos em três variáveis chave de uma governação, qualquer que seja: credibilidade, estratégia e liderança!
Ninguém acredita neste Orçamento, seja ele o que for, como ninguém acredita no governo. Ninguém acredita que o que lá venha faça qualquer sentido, porque se percebe que nada é reflectido, nada é sustentado, que tudo é feito em cima do joelho. Ninguém acredita – a começar nos próprios Passos e Gaspar (se há medidas que teoricamente produzem resultados muito acima dos requeridos é porque não acreditam mesmo que elas produzam os resultados esperados) - que seja para cumprir porque, como já o deste ano já demonstrou, as previsões e os pressupostos são de quem anda lá por cima, donde se lançou ontem o austríaco Felix Baumgartner.
Não se percebe uma estratégia. É um orçamento sem rumo, exactamente como sem rumo está o governo, perdido, sem saber por onde seguir. As sucessivas mediadas que foram sendo conhecidas, lançadas como barro a parede, são a prova disso. Mas é o espectáculo desta ponta final do orçamento que é mais elucidativo: um orçamento enquadrado numa estratégia, minimamente sério e credível, há muito que estaria preparado, e não andaria agora a passar por todo este experimentalismo errático de última hora.
Não há liderança: Passos Coelho nunca liderou e Vítor Gaspar, cuja liderança nos trouxe até aqui, está desacreditado. Interna e externamente: quando Lagarde e Durão Barroso tiveram a lata, cada a sua, de dizer o que disseram, o tapete fugiu-lhe definitivamente debaixo dos pés. Perdeu qualquer capacidade de liderança! Marcelo Rebelo de Sousa dizia ontem que reuniões de 13,15 ou 20 horas apenas demonstram falta de liderança. Sem dúvida!
A fuga de informação, fazendo chegar às redacções dos jornais dezenas de páginas da proposta orçamental, é outra prova inequívoca da falta de liderança no governo, mas também do ambiente de conspiração, desconfiança e traição que mina o governo e a coligação.
O orçamento não é apenas um orçamento muito mau, que acaba com o que resta da classe média e que arrasa completamente a economia – e isso já seria motivo para intervenção presidencial – é, ainda, uma imensa tela onde se projecta um governo acossado, sem estratégia, sem missão, perdido, sem rumo, desavindo e completamente tolhido de movimentos.
Sem comentários:
Enviar um comentário