sábado, 28 de outubro de 2023

A época compactada num só jogo


Os adeptos benfiquistas estão desiludidos, assobiam e puxam dos lenços brancos. Ainda assim, dizem presente. Sempre. Voltou a ser assim, hoje, na Luz, não a festejar, mas a celebrar os 20 anos, cumpridos na passada quarta-feira. Casa cheia ... praticamente.


E voltaram a sair desiludidos. Voltaram a assobiar a equipa, e voltaram a mostrar lenços brancos a Roger Schemidt, depois de um jogo que foi um compacto do que tem sido esta época do Benfica. Se quiséssemos juntar num vídeo de 90 minutos o que tem sido esta época não seria preciso trabalho de edição. Não era necessário fazer recortes e colagens, bastaria pegar neste jogo de hoje com o Casa Pia.


Começamos por ver uma equipa nervosa, incapaz de tomar conta do jogo e de se impor à estratégia que o treinador do Casa Pia trazia para o início do jogo. Que não é nada de novo. É um clássico dos  jogos do Benfica nesta época. Todos os treinadores adversários perceberam o incómodo que a pressão alta causa aos jogadores do Benfica. E todos têm invariavelmente iniciado os jogos desta forma.


Dura o que dura. Umas vezes mais tempo, outras menos. Quase sempre por limitações próprias - aquilo obriga a muito desgaste. Raramente por imposição do Benfica. Voltou a ser assim. Foi assim a primeira metade da primeira parte.


Quando, mais tarde ou mais cedo, o adversário começa a baixar, com duas linhas de cinco muito juntas e encostadas à sua grande área, o Benfica passa a trocar a bola, a rodar o jogo de um lado para o outro, para trás e para o lado. Os jogadores tentam então até a exaustão furar por onde nem uma agulha cabe, convencidos que essa é a solução para entrar com a bola pela baliza dentro. Não há remates. Quando abrem jogo pelas laterais, falta presença na área. E os cruzamentos acabam invariavelmente nos pés e nas cabeças dos defesas adversários. Que não raras vezes saem com bola em contra-ataque porque, ao contrário da época passada, os avançados do Benfica nada fazem para lhes bloquear a saída. Porque o meio campo não abafa os espaços e não ganha segundas bolas. Apenas corre para trás. Quando (alguns) correm.


 A qualidade técnica e a inspiração de um outro jogador é, às vezes, suficiente para fazer provocar um ou outro desequilíbrio na muralha defensiva adversária, e acabar por criar e transformar uma ou outra oportunidade em golo. 


É assim. E foi assim na segunda metade da primeira parte. A inspiração do momento veio de João Mário, já às portas do intervalo.


Quando chega ao golo a equipa descansa no resultado. Como que se o golo lhe tivesse dado tanto trabalho que precisa de descansar. Domina o jogo, tem bola. Mas nas calmas, que a vida não está para correrias. A intensidade é baixa, mas vai sempre caindo. O adversário sente o resultado em aberto. Vai ganhando vida, pouco a pouco. Quando dão por isso os jogadores do Benfica passam a ficar inquietos, e a equipa volta ao nervoso do início do jogo. 


Tem sido assim, e assim voltou a ser. Ainda o Casa Pia não começara propriamente a ganhar vida quando surgiu a oportunidade clara de empatar o jogo, num precipitado penálti de Florentino, de regresso à equipa. A falta de ritmo tem consequências destas. 


Trubin defendeu (pela segunda vez, depois de Portimão), a Luz suspirou de alívio, e a equipa pareceu ter percebido que teria de acordar. Di Maria entrou para substituir Neres. E Jurásek para o de Bernat, substituição que só se percebe por Shemidt entender que precisa de dois jogadores para ter um lateral esquerdo. Mas nem dos dois consegue fazer um. Depois entrou Tengstedt, para o lugar da contínua nulidade de Cabral. Aí, na posição 9, nem de três consegue fazer um.


Deu em pouco esse espécie de reacção ao penálti defendido por Trubin. Bem espremido, deu num golo anulado a António Silva, e num único remate, o de Di Maria logo após a entrada, para a defesa da noite do guarda-redes do Casa Pia. Que, a 10 minutos do fim, empatou. Com um golo inacreditável, num remate sem qualquer espécie de ângulo com Trubin, depois de herói, a passar a réu, com a bola a passar-lhe entre as pernas.


Aí o Benfica acordou. E no que restou do jogo - um quarto de hora, com a compensação - voltou ao nível do último quarto de hora da primeira parte. Mas faltou-lhe a sorte - duas bolas nos ferros, de Florentino (na trave, com a bola a ressaltar para as costas do guarda-redes, o que dá sempre golo, e a sair pela linha de fundo) e António Silva (ao poste) - que a equipa, em boa verdade, não fez por merecer. 


Também a (falta de) sorte entra neste compacto que demonstra a irregularidade do Benfica desta época. Mas não a explica. E o que se está a passar no Benfica precisa de explicação. 


É preciso, por exemplo, perceber se o que está acontecer, depois do que aconteceu na última época, tem algum paralelo  com o que aconteceu há três anos com Bruno Lage. A ideia que se vai formando é que é decalcado a papel químico, se ainda alguém se lembra do que isso é.


 

5 comentários:

  1. Incompreensível como é que se perdem pontos num jogo destes. Só me vem á memória um texto de Millôr Fernandes, que não reproduzo aqui, porque além de muito extenso, tem muitos palavrões.

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  2. Desta vez não concordo, Pedro. Acho até que é bem compreensível. É, sim, inadmissível!

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  3. Pois, pensando melhor e mais a frio…Sessenta e nove milhões de euros depois, nem o Cabral é o nosso Bellingham, nem o Jurásek é o novo Hans-Peter Briegel, nem este Benfica chega aos calcanhares do Benfica da época passada e parece até que o Roger Ball se transformou numa espécie de Roger Jesus.
    Como é que isto se explica?
    Perante as saídas de Grimaldo e Ramos, que tanto contribuíram para o sucesso da época transata, um bom planeamento e uma gestão desportiva diligente aconselhavam a contração de jogadores com características semelhantes, ao invés de se gastarem 34 milhões de euros em dois jogadores que estão nos antípodas.
    E como é que se explicam as saídas de Ristic e Gilberto, jogadores já identificados com a equipa e com o clube?
    Caramba Rui, se fosses um homem ligado aos negócios da construção, da restauração ou da panificação, que tivesse aterrado de paraquedas no futebol, ainda podia compreender, mas não Rui, tu és um homem do Benfica e do futebol.
    É normal que face ao futebol (não) praticado os adeptos manifestem o seu desagrado, mas já deviam saber que lenços brancos também não ganham jogos.
    E Pluribus Unum !

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  4. ... carrega Benfica.
    Estes jogadores são tão bons como os outros, quando ganharem
    Até lá, só vos faz bem perder, só é pena não ser de goleada.
    Coitado do treinador, teve que por os craques ambos os dois (di maria e neres) ao mesmo tempo e juntinhos, porque os craques sempre se consegue entender ... e principalmente ganhar jogos, pelo menos ao FCP, e é quanto basta.
    Felizmente, há muito benfiquista que de futebol jogado percebe bola, como o JJ já bem sabia.
    Carrega Benfica, et pluribus unum ...

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