O jogo era despedida da Champions, já se sabia. Em jogo, nesta partida na Áustria, com o Red Bull Salzburgo, estava a fuga ao último lugar no grupo, e a discussão do acesso ao "play off" da Liga Europa através do terceiro lugar.
A equipa austríaca gozava da vantagem de ter ganhado por 2-0 na Luz, no arranque da competição, num jogo cheio de incidentes, que acabaria por ser determinante naquilo que foi a tragédia da Champions. E de jogar em casa. O Benfica tinha essas desvantagens, e ainda a de não ter adeptos no Estádio. Pela segunda vez, em três jogos fora. Na verdade teve. Chegou a ouvir-se gritar Benfica no Estádio. Poucos, mas houve quem tivesse conseguido encontrar forma de obter o bilhete de ingresso.
Para continuar a competir internacionalmente, agora na Liga Europa, o Benfica precisava de ganhar por um mínimo de dois golos de diferença, para anular a desvantagem da Luz. Não importa agora se seria ou não mais vantajoso ficar desde já fora das competições europeias, com total disponibilidade para as competições internas.
Importa que o Benfica fez, para além de uma muito boa exibição de futebol, uma extraordinária demonstração de espírito de equipa, de união, e de vontade de jogar bem e ganhar. É certo que voltou a desperdiçar uma enormidade de ocasiões para marcar. Que voltou a demonstrar que não tem quem marque golos numa proporção aceitável das oportunidades que cria. E que voltou a confirmar os erros de casting das contratações para esta época, em particular nas laterais. Jurásek continuou no banco, e Morato continuou a fazer de defesa esquerdo. Aursenes não sabe jogar mal. Faz falta no lado esquerdo do ataque, mas não se limitou a cumprir na lateral direita. Foi, ainda assim, dos melhores em campo, apenas superado por Di Maria, claramente hoje o melhor, e por João Neves, lá muito próximo.
No jogo, o Benfica foi sempre melhor. Esteve, primeiro, muito bem a anular o ponto mais forte da equipa austríaca: a pressão alta, com que já havia impressionado na Luz, e a capacidade física dos seus jogadores - jovens, parte integrante do modelo de negócio do clube. E, depois, a impor o seu futebol bem mais trabalhado.
Poderia ter resolvido tudo o que havia para resolver ainda na primeira parte, não fosse a incrível dificuldade em marcar golos feitos. Quando à meia hora Di Maria marcou o primeiro, de canto directo - espectacular - já devia dois golos ao placard (Rafa e o mesmo Di Maria). Para apimentar o sofrimento o árbitro demorou mais de três minutos para confirmar o golo. Não se percebia qualquer razão para não confirmar o golo, mas essa confirmação tadou uma infinidade. Ficou a ideia - até porque o árbitro deslocou-se ao local do monitor mas não utilizou outra coisa que uns auscultadores - que se teria tratado apenas de dificuldades de comunicação áudio.
No primeiro dos quatro de compensação da primeira parte Rafa acertou finalmente com a baliza, numa jogada que começou em mais uma recuperação de João Neves, seguida de mais uma grande abertura para Di Maria, para assistir o mais desafortunado dos jogadores do Benfica nos últimos tempos. Era o 2-0, o tal resultado necessário. Mais necessário para deixarem de fustigar a equipa, do que propriamente pelo real interesse em prosseguir pela Liga Europa.
No recomeço Roger Schmidt deixou Tengstedt no balneário e fez entrar Musa. O Benfica reentrou a tomar conta do jogo, à procura do terceiro golo. Foram 10 minutos avassaladores, em que Rafa, Musa (incrível, como a bola não entrou), Di Maria e Rafa, de novo (com a baliza toda à mercê acertou precisamente no guarda-redes) desperdiçaram quatro golos cantados.
Não marcou o Benfica, marcou o Salzburgo. Na primeira vez que, na segunda parte, chegou à baliza de Trubin, Sucic - o melhor jogador da equipa, que também já impressionara na Luz - rematou, a bola desviou em Tomás Araújo (que jogou - e bem, a grande nível - no lugar do António Silva, mal expulso no jogo com o Inter) e traiu Trubin.
O diabo está sempre atrás da porta. De uma possível vantagem de cinco golos, de repente, o Benfica passava à vantagem mínima. Mas não deixou de lutar contra o infortúnio, e essa é uma das boas notícias que chegaram de Salzburgo.
Cinco minutos depois já Otamendi poderia ter feito o terceiro, em mais um canto cobrado por Di Maria. Pouco depois entrou Gonçalo Guedes, e saiu Kokcu. E o Benfica continuava a jogar bem e a procurar o terceiro golo. Di Maria acertou no poste. Rafa voltou a errar a baliza, rematando por cima, na cara do golo. Logo a seguir, isolado por Di Maria, volta a falhar o golo, permitindo a defesa do guarda-redes. Musa segue-lhe as passadas. João Neves (fez tudo!) rematou mas, à última da hora, a bola desviou-se da baliza.
O jogo chegava aos 90 minutos e, com o Benfica completamente lançado no ataque, onde já contava com Otamendi, o Salzburgo, com a frente de ataque renovada, começava a sair em contra-ataques rápidos. Schmidt trocava João Mário por Arthur Cabral, já no primeiro dos cinco minutos de compensação. O normal, pensava-se!
João Neves faz um passe de 25 ou 30 metros a desmarcar Aursenes, na direita. Cruzou para dentro da área, onde surgiu Cabral para, de calcanhar, na primeira vez que tocava na bola, fazer o que ainda não havia sido feito. O terceiro, que repunha a tal diferença de dois golos.
Não sei se é ou não uma vitória épica. Com um golo épico, do mais desgastado dos jogadores do plantel. Mas sei que é a vitória de uma verdadeira equipa. Apenas possível porque os jogadores estão com o treinador, como já era possível perceber. É por isso que esta não é uma vitória importante por manter a equipa na Europa. É importante por manter a equipa. E é importante porque é decisiva para ganhar o que há para ganhar!
Parece-me que se está a sobrevalorizar a exibição do Benfica: jogou melhor, mereceu a passagem, mas…
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