![]()
Assistimos hoje, na Luz, a um belíssimo espectáculo de futebol. Começo exactamente por aí, pelo lado do espectáculo, a que nem sempre se dá o devido destaque.
Foi um jogo aberto, em que quer o Benfica, quer o Gil Vicente, se preocuparam unicamente em jogar à bola. Deveria ser sempre assim, mas bem sabemos que não é. As equipas preocupam-se sempre mais com o resultado do que com a exibição. Mais em destruir, que em construir. Em simular faltas, e queimar tempo, que em disputar o jogo.
Bem sei que há nisto muito de romantismo, e que, hoje, o futebol não é nada disso. Mas continua a ser bonito ver um jogo de futebol em que as equipas em confronto são leais, jogam o jogo, e deixam de lado as manhas que matam o espectáculo.
Foi neste "cenário macro" que aconteceu este Benfica-Gil Vicente da vigésima jornada do campeonato. O Benfica não precisou de fazer uma exibição deslumbrante para ser parte activa, e protagonista principal, deste belo espectáculo de futebol. Entrou em campo com duas caras novas no onze titular mas, na realidade, com três alterações na equipa: Florentino e Bah, foram as caras novas; Aursenes, libertado do lado direito da defesa pela inclusão, mais de três meses depois, do regressado Bah, foi a terceira, com o regresso à ala esquerda, há muito ocupada por João Mário.
Quer dizer que, de fora, ficaram (precisamente) João Mário e Kokçu. Dois jogadores discutidos: o primeiro, pelas razões de sempre; o segundo por razões de posicionamento no campo. Dois jogadores tidos por "pendurados" nos "dogmas" de Schmidt.
Não sei - ninguém saberá - se os dogmas deixaram de o ser. Sabe-se - vê-se claramente - que Florentino faz melhor o que Schmidt pretende que Kokçu faça na "posição 6". Sabe-se que "o 10" é "um 10", e não "um 6". E sabe-se - melhor, imagina-se - que, para Kokçu jogar lá na frente, só o poderá fazer na vez de Rafa. Que não é um "dogma", é a realidade do melhor que a equipa tem.
Na verdade os "dogmas" dos treinadores são o que são. E, por muito bom que Kokçu seja "a 10", não há forma de prescindir de Rafa ... enquanto ele por cá estiver. Tal como, por muito que Schmidt aprecie o futebol de João Mário, preferirá sempre Aursenes para aquela função na esquerda.
A insistência em Morato no lado esquerdo da defesa é outro dos "dogmas" que este jogo de hoje desfez. É sempre mais fácil enfrentar os dogmas quando as coisas correm bem. Bastaram os pouco mais de vinte minutos em campo para Álvaro Fernandez confirmar que, finalmente, o Benfica tem um lateral esquerdo. Não é (ainda?) Grimaldo, mas deixou claro que Morato (não deve ser alvo de ingratidão) terá de ter as suas oportunidades mas no seu lugar de central.
A quebra destes "dogmas", evidentemente que pelas opções agora disponíveis, junto com o fim das indefinições na posição 9, com a estabilização da aposta em Cabral, dão uma nova estabilidade à equipa. Tudo isto somado com a liderança, mesmo que à custa do adiamento do jogo do Sporting em Famalicão por falta (protestos) de polícia, dão um novo alento ao Benfica para atacar esta fase decisiva do campeonato.
O resto foi o jogo. Bom, como já foi referido. E que o Benfica dominou por completo, garantindo que nas bancadas da Luz se vivessem 90 minutos de festa, sem qualquer espécie de sobressaltos. Não precisou de rematar muito - foi o jogo com menos remates na Luz, apenas dez - nem de uma rara e extraordinária eficácia para construir o 3-0 final. Precisou apenas de jogar bem, e de marcar nos momentos certos: aos 15 minutos, num cabeceamento de Cabral, no canto cobrado por Di Maria; aos 35, igualmente na sequência de um canto, mas com notável trabalho do inesgotável João Neves, ao segundo poste; e de Rafa, logo no arranque da segunda parte, em mais um grande remate, a concluir uma das melhores jogadas do desafio.
E foi o minuto 29, de comovente homenagem a Feher, por acaso numa altura do jogo em que o Gil Vicente, que nunca abdicou de jogar à bola, mais procurava ameaçar a superioridade benfiquista. Mesmo que apenas a cinco minutos do fim tenha obrigado Trubin à sua única defesa. De grande qualidade, a garantir a folha limpa.
Sem comentários:
Enviar um comentário