segunda-feira, 10 de junho de 2024

"Poucochinhas obras valerosoas"

Pedro Nuno Santos: “O PS é hoje a primeira força política em Portugal” –  Observador


Ao contrário de "há 10 anos", a vitória "por poucochinho" do PS nestas europeias fortalece-lhe a cúpula. Desta vez, ao contrário de António José Seguro há 10 anos, Pedro Nuno Santos (PNS) pode clamar vitória. 


Claro que exagerou a fazê-lo - bem mais que Marta Temido, o rosto da vitória - mas sabemos que é sempre assim. Quem ganha, ganha. Mesmo que por "poucochinho". Foi assim nas Legislativas, há três meses, quando Montenegro por "um poucochinho", à luz da participação eleitoral - a abstenção nestas Europeias, ainda que inferior às anteriores e a mais baixa dos últimos 20 anos (graças ao novo instrumento do voto em mobilidade, que se saúda), foi superior a 63% - ainda mais  "poucochinho", ganhou. E voltou ontem a ser assim, numa espécie de desforra.


Quem perde por "poucochinho" não deixa de perder, mas quase não conta. Viu-se como quase não contou para PNS há três meses, saindo cheio de vigor para fazer oposição. E voltou a ver-se com Montenegro a sair cheio de vigor para ... continuar a governar. E abrir as portas do futuro político de Sebastião Bogalho, o rosto da derrota que foi só e apenas rosto.


De resto, estas foram as eleições do "poucochinho".


Foi também por "poucochinho" que o Chega segurou o terceiro lugar no campeonato partidário nacional, no "trambolhão" de 800 mil votos que levou das legislativas de 10 de Março para ontem. Com a IL à perna, e com os mesmos dois deputados eleitos.


Que o Chega perdeu - e com força -, não há dúvidas. Se alguma houvesse ter-se-ia dissipado no final da noite, quando André Ventura empurrou o pobre Tânger Corrêa para a frente das câmaras e microfones.


A IL ganhou, é reconhecido por unanimidade. Mas, ao contrário de PNS, Rui Rocha não tem grandes razões para cantar vitória. E se calhar foi por isso que não cantou. Menos ainda para estar descansado. É que não só ficou demonstrado que este resultado é de Cotrim de Figueiredo, como ficou claro que há anos-luz a separar a capacidade de liderança e mobilização de um, do outro. 


Foi também "poucochinho" o que separou a votação dos partidos da esquerda. O BE teve mais uns "pozinhos" que a anacrónica CDU, e esta, ao contrário de todas as sondagens, mais uns que o Livre. Que, ao contrário dos doutros dois - o BE elegeu Catarina Martins e, a CDU, João Oliveira, perdendo ambos um dos dois deputados que antes tinham no Parlamento Europeu - não conseguiu eleger o cabeça de lista, Francisco Paupério, a "vedeta" da campanha eleitoral que foi perdendo gás, depois de esbatido o efeito-surpresa.


Também aqui, no fundo da tabela deste campeonato, os líderes saem em perda para os cabeças de lista apresentados. Catarina Martins está muitos furos acima de Mariana Mortágua, como João Oliveira está de Paulo Raimundo, por mais impossível que seja a sua missão. Também Rui Tavares saiu a perder para Francisco Paupério. Começou a perder logo no processo de escolha do candidato, continuou a perder quando apenas se colou a ele quando percebeu que estava a ter sucesso. E, definitivamente, perdeu para Paupério na imagem de transparência, coerência e humildade.


Anunciar, como Rui Tavares fez às 8:30 da noite, a eleição do deputado do Livre, e a vitória por essa Europa fora que, de todo, não lhe pertencia foi, mais que um tiro no pé, o sinal de desnorte do "homem só" do Livre nestas eleições. Do céu ao inferno apenas em três meses. Não se ouvindo o estrondo da queda de André Ventura, ela não foi menor.


Quem ganhou sem ter sequer aparecido foi António Costa. Como há dez anos!


Nesta conjugação de factores, com Ven der Leyen praticamente a assegurar a recondução na presidência da Comissão Europeia, António Costa está agora mais perto da ambicionada presidência do Conselho Europeu.


E foram assim estas eleições europeias n´"esta que é a ditosa pátria minha amada". Que Camões, hoje celebrado, cantou "espalhando por toda a parte, com engenho e arte, as obras valerosas daqueles que se vão da lei da morte libertando". 


Que hoje já não são assim tantas. Nem tantos!

2 comentários:

  1. O PNS puxou a brasa à sardinha, pois até ao apuramento da antepenúltima assembleia, os média (todos!!!) diziam que a AD iria ganhar, que o PS iria ficar com 6 a 7 deputados, contra 8 da AD, 3 do Chega e 3 da IL: Conforme receberam os dados das últimas assembleias, a previsão dos media falharam em 3 assembleias de voto: é que a AD não ganhou em nenhuma (pior que ficou em 4 lugar na maior de Setúbal), assim como o Chega e IL não cresceram 25%, como os jornalistas, directores de informação e comentadores, estavam a dizer ser possível. Graças aos média, Chega e IL chegaram a festejar 3 deputados e a AD a colocar 9 membros da lista no palco, a contar que pudessem eleger os 9, entretanto foi preciso corrigir o discurso, enquanto Luís Montenegro anunciava novas medidas do seu governo (confirmando que o governo AD andou a fazer campanha).
    Uma coisa que achei estranha: Ninguém falou sobre a proposta da AD de permitir o estatuto de mecenato (até 7000 milhões de euros anuais em donativos, dedutíveis, feitos por pessoas e/ou empresas a empresas de media nacionais) para a comunicação social portuguesa. Proposta essa anunciada em plena campanha eleitoral e quando a direita domina todos os conselhos e direcções de todos os órgãos de comunicação social nacionais, além de Pedro Frazão (Chega) ser conhecido como o "senhor 10000 milhões de perfis em 2 redes sociais". Presumo que também poderá usar a empresa de comunicação e receber donativos ao abrigo do estatuto do mecenato para os media.

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  2. O milagre das rosas consegue num estalar de dedos transformar o que já foi poucochinho num estridente e rotundo feito.
    O eleitor não é mentecapto e sabiamente percebeu que carregar votos no Chega era como deixá-los num apeadeiro para o PS os ir arrebanhar.
    Então seria mais pratico endereça-los diretamente ao destinatário.
    Mas atenção que se tratou apenas de um empréstimo contaminado para reciclagem.
    Quanto a Marcelo é por demais evidente constituir cada vez mais uma carta fora do baralho.

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