
Cheguei bem mais cedo ao Estádio que o habitual, faltava pouco menos de uma hora para o início do jogo. Estava pouca gente, visivelmente menos de 10% da capacidade, quando foi pela primeira vez anunciado o onze inicial. Ao nome de João Mário saíram das bancadas uns mal notados assobios, logo apagados quando o "speaker" prosseguiu. A ordem era a numérica, e o 20 era logo o quinto. No fim, ao rematar com "e o nosso treinador é ...", os assobios daqueles cinco ou seis mil pareceram de quase 60 mil, que menos de uma hora depois enchiam as bancadas da Luz. Sem grande diferença dos que se ouviram à saída para o intervalo. Ou nas substituições, aos 65 minutos, quando foi anunciada a saída de Prestiani, um dos poucos jogadores com prestação aceitável para aqueles 60 mil.
Se dúvidas existissem sobre o ambiente de hostilidade a Roger Schmidt ficaram logo esclarecidas. O "speaker" teve o bom senso de não voltar a referir o seu nome, e as bancadas - visivelmente com muitos emigrantes, alguns deles com a infelicidade de ter a claque por vizinhança, o que quer dizer petardos, bombas e desacatos - quiseram poupar os jogadores (à excepção, mais uma vez, de João Mário) ao seu desagrado com aquele futebol. Pobre, cristalizado no passe para o lado e para trás na zona central do terreno.
Sem largura, sem alas e sem profundidade. Com dois médios centro - Florentino e Barreiro - de tracção traseira, e mais dois a fazerem de alas, que não são. Quatro, portanto. Como Prestiani também anda por ali, atrás de Pavlidis, a fazer de 10, é meia equipa que fica ali emperrada.
São os laterais que dão abertura, pensará Schmidt. Mas não dão, como se viu. Nunca vão à linha de fundo, e não criam desequilíbrios. Bah nunca o fez durante toda a primeira parte. Beste ficou logo de início fora de combate, com uma lesão muscular, justamente quando corria para uma solicitação pelo corredor. Entrou Carreras, que acabou por mexer mais com o jogo.
A equipa não funciona, como toda a gente vê. O primeiro remate do Benfica surgiu apenas aos 26 minutos, obra de João Mário e objecto de uma boa defesa do guarda-redes Patrick Sequeira. Passou-se a primeira parte nisto, com o Casa Pia a ir assustando aqui e ali, como aos 37 minutos, com Obeng a ter a possibilidade de marcar, depois de um bom cruzamento de Larrazabal.
Ao intervalo a equipa partiu para o balneário sob gigantesca assobiadela. De lá regressou na mesma, sem uma alteração, apenas mais mexida, muito por obra de Carreras e Prestiani, o único a continuar a tentar agitar o futebol da equipa. O tempo passava, e percebia-se que não seria assim que o Benfica conseguiria ganhar o jogo a um adversário muito fraco, que defendia com nove jogadores, queimava tempo e enervava ainda mais as bancadas.
É então que Schmidt faz algo de realmente raro: três substituições de uma vez, a vinte e cinco minutos do fim!
Retirou os redundantes Barreiro e João Mário, e Prestiani, o jogador que mais queimado estará a ser por esta estranha obsessão de Schmidt por quatro médios-centro. Entraram Tiago Gouveia, para a ala esquerda, Kokçu para a construção, e Marcus Leonardo para se aproximar de Pavlidis, a permitir-lhe dedicar-se a procurar espaços e bola. E o jogo mudou finalmente!
Cinco minutos depois da substituição já Tiago Gouveia assistia para o golo de Pavlidis, na primeira explosão da Luz (as outras daquela rapaziada do topo que gosta mais de pirotecnia que de futebol não entram nestas contas). Dez minutos depois era o próprio Tiago - naturalmente o homem do jogo - a marcar, numa jogada onde fez tudo: recuperou a bola, atravessou com ela meio campo, tabelou com Aursenes e marcou. E mais dez minutos depois, já em cima dos 90, Aursenes, depois de um grande passe de Kokçu, fez o terceiro.
Schmidt salvou-se nas substituições. Falta saber se é uma verdadeira salvação, ou se apenas resistência fortuita a uma condenação inevitável. Falta saber se percebeu o que mudou aos 65 minutos.
Se calhar não percebeu. Como também não terá percebido que a última substituição, que reservou para os 87 minutos para fazer entrar Otamendi e sair Tomás Araújo, depois do Renato Sanches ter passado, por duas vezes, largos minutos em aquecimento, não cai bem. Se havia algum sentido em lançar alguém para jogar 3 minutos, naquelas circunstâncias, teria de ser Renato Sanches. Mas Schmidt preferiu aproveitar para mandar o Tomás Araújo para o banco, e prestar vassalagem ao capitão.
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