sábado, 21 de setembro de 2024

Há 10 anos

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Perante as notícias da ilegalidade de determinados recebimentos da Tecnoforma, Passos Coelho limitou-se a dizer que não se lembrava e que a Assembleia da República se devia pronunciar sobre isso. Ontem, na sua homilia dominical Marcelo tinha sossegado o país: nada fora intencional e tudo já prescrevera. Hoje, a Lusa alavancou a ordem de Passos e pôs a questão aos serviços do Parlamento, que logo disseram que à época o actual primeiro-ministro não usufruia do subsídio de 10% sobre o vencimento que ditaria a exclusividade. A notícia encheu os jornais e ecoou por toda a comunicação social, como Passos desejava...


Nesta altura estará o leitor a perguntar onde é que está a notícia para além da notícia de que não houve qualquer ilegalidade. Ou, mais, se depois da divulgação da notícia da ilegalidade, não é mais que justificada a amplificação da notícia que a nega?


Pois, mas a notícia é outra. A notícia é a mestria com que Passos Coelho trata destas coisas, a forma exímia como ele lida com as técnicas de imagem na construção do culto da personalidade. 


Há dois dias atrás dei aqui conta do estranho que era, não só Passos Coelho não se lembrar, como remeter para esclarecimentos da Assembleia da República. E, dizia eu ainda, que era muito estranho que, perante matéria de um assunto como a Tecnoforma, Passos Coelho não tivesse uma resposta preparada na ponta da língua. Hoje temos a resposta, não foi preciso esperar muito. Não era mesmo para esperar muito...


Um político, chamemos-lhe normal, do tipo convencional, teria realmente dado a resposta pronta, teria marcado uma posição, como referi no paralelo estabelecido com Luís Filipe Menezes. Mas Passos Coelho já joga noutro campeonato, e é hoje insuperável na arte do cinismo político. Evidentemente que sabia que não estava em exclusividade, e que por aí não havia qualquer ilegalidade. Mas sabia que tinha muito mais força parecer que não dava importância nenhuma ao assunto. E ainda mais fazer com que fosse a Assembleia da República, e não ele, a dar a resposta!


Por isso a agência Lusa lhe fez de imediato o frete. Com serviço completo...


E, claro... Que Passos Coelho recebesse 5 mil euros por mês por, ao mesmo tempo que era deputado, ser porteiro da Tecnoforma nunca mais tem importância nenhuma. Nem qualquer relevância política!


Está um mestre, este Passos Coelho... Quem o menosprezar está a cometer um erro que pagará bem caro... Ouviu António Costa?

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