A dois anos de celebrar o centenário, acabou de terminar a 86ª Volta a Portugal em bicicleta.
Ainda com o rótulo de maior acontecimento desportivo anual do país, a Volta já não é o que era. Não o será mais, afundada na terceira divisão do ciclismo internacional, com equipas nacionais com pouca qualidade, porque demasiadas para os recursos disponíveis, e estrangeiras ainda com menos, porque a falta de qualidade promove falta de qualidade.
Basta lembrar que a Volta a Dinamarca, que decorreu em simultâneo e que ainda há poucos anos não conseguia concorrer com a portuguesa, contou com grandes nomes do pelotão internacional, desde logo com os principais dinamarqueses.
Faltando qualidade, falta espectacularidade à Volta. Faltando isso, começa a faltar-lhe público. E faltando-lhe público, faltam-lhe os patrocinadores que é quem, no final de contas, faz a roda girar. Foi nisto que deu a batota com que o FC Porto e a W52 minaram o ciclismo português durante uma série de anos!
A subida à Senhora da Graça já não alimenta paixões. A subida à Torre já não produz heróis. Joaquim Gomes - creio que no seu último ano de mandato na organização da Volta - este ano ainda lhe juntou Montejunto, mas nem mais uma montanha lhe deu mais alma.
Foi ontem, na 9ª e penúltima etapa que, 42 anos depois, a Volta teve uma chagada na montanha mais alta do Oeste. Com partida aqui à porta, em Alcobaça, 52 anos depois da última vez, ainda no tempo em que o local de chegada de uma etapa era o mesmo da partida da seguinte. E no tempo em que Joaquim Agostinho vestia a camisola amarela na primeira etapa e nunca mais a despia.
Nesse ano, em 1973, e pela segunda vez na sua carreira (a primeira tinha acontecido em 1969, com a vitória a ser atribuída a Joaquim Andrade) seria desqualificado e posteriormente declarado vencedor o espanhol Jesus Manzaneque, que havia ficado a quinze minutos.
Na Volta que temos, e nesta que hoje terminou em Lisboa, com um contra-relógio de 16 quilómetros, ganho por Rafael Reis, da Anicolor/Tien 21, que ganhara já o prólogo (ganhou à entrada e à saída, e foi o único corredor da equipa que dominou por completo, e ganhou a Volta individual e colectivamente, a vencer em etapas), o russo Artem Nich repetiu o triunfo do ano passado. Com 1 minuto e 15 segundos de vantagem sobre o francês Alexis Guerin, seu companheiro na Anicolor/Tien 21, e 1 minuto e 51 segundos sobre o sul-africano Byron Munton, da Feirense/Beeceler, que ocuparam o pódio.
Quatro portugueses apenas nos 10 primeiros. Tiago Antunes, da Efapel, no quinto lugar, foi o melhor. Os restantes foram Pedro Silva (Anicolor/Tien 21), logo a seguir, e Emanuel Duarte (Credibom/LA Alumínios/Marcos Car) e Lucas Lopes (Rádio Popular/Paredes/Boavista), o vencedor da juventude, já no fim da lista.
As designações das equipas portuguesas dão a ideia do problema dos patrocinadores. Apenas uma equipa, a Efapel, ostenta apenas uma marca. Praticamente todas apresentam três marcas, circunstância em que são virtualmente impossíveis ganhos de notoriedade que permitam rentabilizar qualquer investimento digno desse nome.
As equipas estrangeiras, que não enfermam desse mal, vêm para ganhar etapas. E ganharam a grande maioria delas. Note-se como a portuguesa Anicolor/Tien 21, que dominou a Volta como quis, apenas ganhou pelo Rafael Reis, a abrir (no prólogo) e a fechar (no mini-contra-relógio). Artem Nich ganhou a Volta sem ganhar qualquer etapa, bastando-lhe três segundos lugares (em Fafe, na Torre, e no contra-relógio de hoje) e um terceiro, na Senhora da Graça.
E foi isto a Volta a Portugal 2025. Não muito diferente da anterior, nem certamente da próxima.
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