
Mais de 60 mil na Luz, como é já habitual, para um jogo - da 27ª jornada do campeonato, com o Vitória, de Guimarães - estranho. Que começou - depois do minuto de silêncio, cortado por aplausos, à portuguesa, em memória do Silvino Louro, falecido esta semana - com o Benfica a tomar conta da bola.
No apito, Luís Godinho. No VAR, Manuel Mota. Godinho & Mota bem podia ser uma firma comercial qualquer, mas é apenas uma sociedade de malfeitores que se dedica a perseguir o Benfica por todos os campos onde se cruzem. Hoje, provavelmente no jogo mais fácil de arbitrar de todos os que já foram disputados no campeonato, não tiveram grandes oportunidades para brilhar na sua actividade. Ainda assim, por três vezes, Pavlidis sentiu o dedo do Godinho para o negócio. Samu também. Conseguiu distribuir a fruta que quis e escapar até a um simples cartão amarelo.
No banco, Mourinho. De regresso, antecipado pela validação do recurso ao TAD, a que, à segunda, o Benfica recorreu. Mas também Otamendi, Rafa e ... Sidny. Para além dos habituais.
No onze, com o António e o Dedic castigados, e Otamendi lesionado, a novidade era a adaptação de Enzo Barrenechea, a central, ao lado do Tomás. Bah era a solução natural para o lado direito da defesa. O meio do campo ficou entregue a Barreiro, a seis, e a Rios, a oito. Nas alas, Lukebakio regressou ao banco, e Prestianni ao onze inicial. Schjelderup está de pedra e cal, como Dahl. E como Pavlidis, hoje com Sudakov por perto.
Comecei por adiantar que foi um jogo de estranho. E foi. Tão estranho que nos primeiros quinze minutos os de Guimarães não tocaram na bola. O Benfica era o dono da bola, os adversários apenas tomavam contacto com a bola por escassíssimos segundos, numa intercepção, ou num toque fortuito, que logo acabava com a bola de volta aos pés dos jogadores benfiquistas. E no entanto só aos 12 minutos o Benfica conseguiu o primeiro remate.
Ao segundo remate, três minutos depois, numa recuperação de bola de Richard Ríos, sobre o Samu, em zona central, já no do último terço, Prestianni, de primeira, marcou o golo que materializava toda aquela superioridade.
Só a partir daqui o Vitória passou a ter acesso à bola. É evidente que alguma vez isso teria de acontecer, o estranho era o que se tinha passado até aí. Mas não deixou de ser estranho que em pouco tempo se tenha passado do 8 ao 80. De tal forma que, literalmente sem bola no primeiro terço da primeira parte, ao intervalo os rapazes do jovem Gil Lameiras, o novo treinador que veio da equipa B para substituir o também jovem Luís Pinto, que deixou a Taça da Liga em Guimarães, eram já os donos da bola.
Tinham a bola, mas tinham também dificuldade em saber o que fazer com ela. Na verdade criaram apenas um lance de golo, de resto um belo lance futebol, desperdiçado pelo Nelson Oliveira, à entrada do último quarto de hora. Ainda assim era o Benfica quem entrava mais facilmente na área adversária, e quem criava mais situações de perigo.
O intervalo não mudou o jogo em nada. O Vitória SC continuava com a bola, mas voltava mais agressivo. Os seus jogadores pareciam então mais velozes, mais fortes e mais espertos. E aqueles 10 minutos iniciais assustaram as bancadas da Luz.
Valeu então Trubin a negar o empate, com o pé, por instinto. E valeu um novo erro da defesa vimaranense, mesmo ao fechar desses 10 minutos, novamente com Richard Ríos eficaz na pressão, a roubar a bola ao Beni, e a oferecer o golo desta vez a Pavlidis, que tão necessitado andava dele.
Foi este golo que decidiu o jogo. Não que o Vitória se tenha encolhido, e o Benfica crescido a partir dele. Nada disso. O jogo manteve a mesma toada - minhotos com bola, mas sem saberem o que fazer dela; e encarnados confortáveis, e mais assertivos quando a conquistavam.
Naquela toada o jogo pedia ao Benfica especialistas em transições rápidas, ao jeito de Rafa, Lukebaquio e Ivanovic. Mas as substituições tardaram. Só chegaram já depois do terceiro golo, já às portas da entrada para o último quarto de hora, num auto-golo do infeliz Beni, que encaminhou para dentro da baliza o desvio de Pavlidis ao cruzamento de Bah que sairia ao lado. E quando chegaram não resultaram.
Mesmo que o croata tenha mexido com o jogo, a justificar maior utilização, nem Rafa, nem depois, Sidny - de regresso, depois de ter cumprido o castigo de balneário pela infantilidade de Madrid (pedir naquela altura a camisola o Vinícius não lembrava ao diabo!) - e Lukebaquio souberam explorar o espaço que a equipa de Guimarães deixava nas costas. Perdeu-se, assim, a última oportunidade de acabar com um jogo estranho, transformando-o num normal jogo de futebol onde a melhor equipa, com os melhores jogadores, acaba por impor a lei do mais forte.
É verdade que os nossos principais rivais já ganharam muitos jogos assim. Dominados durante a maior parte do jogo, com menos bola, menos remates e menos cantos. Mas isso não é estranho. Estranho é quando isso acontece ao Benfica!
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