Por Luís Fialho de Almeida
No passado dia 18, independentemente do interesse dos promotores, o campo foi à capital e estacionou na Av. da Liberdade, para apresentar uma mostra de produtos agro-pecuários.
O campo precisa de se afirmar na cidade para conquistar reconhecimento e dignidade.
Reparem neste entendimento de um intérprete da paisagem: “O campo é o lugar onde paramos para fazer chichi quando nos deslocamos entre duas cidades”. Esta visão redutora e depreciativa, aqui utilizada com ironia, traduz o entendimento de outros intérpretes, não da paisagem, mas dos destinos do país quando gerem as suas prioridades.
O sector primário, por gerar os bens da fileira agro-alimentar, está na base da sustentação da sociedade e esta, cada vez mais urbana, vai esquecendo a origem dos alimentos que lhe aparecem na mesa todos os dias.
A agricultura, assegurando a satisfação de uma necessidade primária (ou primeira) é, por isso, encarada em sociedades mais responsáveis como actividade estratégica. Converteu o homem em sedentário quando este encontrou terra fértil para cultivar e gerou conflitos, às mais diversas escalas, sempre que houve disputa pelo solo e pela água.
Verificamos, também, que alguns ilustres analistas e comentadores dão agora mais importância ao sector primário e lamentam a perda da sua relevância económica, bem como a má gestão dos fundos comunitários e a sua orientação preferencial para outras prioridades.
O Presidente da Republica, Cavaco Silva, no jornal Expresso do passado dia 10, constata que somos o país agricolamente mais envelhecido da EU e apela ao rejuvenescimento do tecido agrícola português, reconhecendo a necessidade de apoio público mais activo aos jovens agricultores. Esta preocupação, como constatou a Quinta Emenda, em apreciação anterior, peca por tardia.
Esta nossa mania de que terciarizar é que é fino levou-nos mesmo a olhar já com saudade aquele intérprete da paisagem. Hoje, país desenvolvido que somos, com as auto-estradas feitas com os patacos por que vendemos agricultura – cuja manutenção já não conseguimos pagar – vamos de uma cidade a outra por das auto-estradas que escolhermos, em automóveis velozes que nem a paisagem nos permitem ver, e fazemos chichi nas áreas de serviço dos monopólios nacionais.
ResponderEliminarDiz e bem que a agricultura é actividade estratégica nas sociedades responsáveis. Não é, evidentemente, o caso da nossa. Sem responsabilidade e sem vergonha: como o seu mais alto dignitário!
Na verdade, quase se pode dizer que a agricultura foi vendida, pois foi dada prioridade ao betão, ao asfalto e obras de fachada e de regime, e quando foi preciso até se desviaram fundos destinados a agricultura para compensar encargos com auto-estradas, nas quais ficou adiada a cobrança de portagens. Algumas obras foram necessárias para melhorar as acessibilidades, o abastecimento publico, o saneamento básico e o bem-estar das populações, mas apenas dinamizaram actividades económicas e emprego de natureza precária. E agora? - falta emprego, falta dinheiro e começa a faltar o pão - mas temos auto-estradas que nos desligam da paisagem do percurso e apenas nos dão a do destino, tal como o TGV ou o elevador que nos leva ao 20º andar em segundos, alterando profundamente a nossa relação com o espaço e com o tempo, como analisa Paul Virilio .
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