Convidado: Luís Fialho de Almeida
A indignação é um sentimento cada vez mais presente na vida das pessoas, no nosso país e um pouco por todo o mundo. O movimento dos indignados aí está, por todo o lado, como manifestação contra o poder e o mau uso que dele é feito.
A indignação deve ser considerada como um exercício de cidadania activa recomendável numa democracia saudável, baseada na informação plural e séria. Mas a própria democracia começa a estar em causa com a inflexão para outro modelo - “pós-democracia”- arrastados pela influência do eixo franco-alemão e pela supremacia dos especuladores financeiros sobre o poder político dos países, levando nomeadamente à imposição de governos técnicos como na Grécia e na Itália.
Assim, indignai-vos para que não se perca a democracia, tendo a polis como referência e não a empresa, e para que não se percam a liberdade e os direitos conquistados. Indignai-vos, através da atitude individual ou colectiva, com ou sem greves gerais, antes que a revolta dos espíritos se manifeste com rebeliões de cocktail-molotov ou golpes de estado.
Indignai-vos contra aqueles que, pelas suas ações governativas, nos levaram à humilhante identificação de PIGS. Indignai-vos, reclamando o projecto europeu de paz, bem-estar, justiça social e democracia participada, com dimensão ética e ambiental.
Indignai-vos contra partidos, corporações, ordens iniciáticas e afins, que sob um eventual pretexto ou filosofia louvável de serviço público, apenas formatam solidariedades entre pessoas da política e da finança, para benefício próprio e dos seus pares, e não da sociedade.
Indignai-vos contra as organizações e a administração pública, quando valorizam a “excelência” com base em critérios de cor política, de cotas e conveniências, e não do mérito. Indignai-vos contra as cumplicidades com os paraísos fiscais, que responsáveis políticos escondem ou ignoram com natural indiferença.
Indignai-vos contra a comunicação social, que “injustamente” sacrifica figuras públicas com escândalos sociais, morais, de fraude económica e outros, incriminando “gente inocente” - inocência por direito próprio e imaculada pela justiça.
Indignai-vos contra a marcha que nos leva à pobreza e contra a pobreza que nos faz escravos.
Indignai-vos contra tudo o que fere a dignidade e compromete o futuro. Indignai-vos, pela participação activa e contra a indiferença. Podemos ser pacientes mas vigilantes, tolerantes mas não resignados.
“Indignai-vos”, é também, o título de um pequeno livro, espécie de manifesto, de Stéphane Hessel, com prefácio de Mário Soares, e que se lê por impulso. Stéphane Hessel, agora com 93 anos, lutou contra o nazismo, duas vezes evadido de campos de concentração, foi colaborador do general De Gaulle na resistência francesa, diplomata, embaixador vitalício e um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
“A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar”: diz Hessel. Que alerta, para o “facto de existirem hoje tantos e tão sérios motivos para a indignação como no tempo em que o nacional-socialismo ameaçava o mundo livre”. E especifica: “Se procurarmos, certamente encontraremos razões para a indignação: o fosso crescente entre muitos pobres e muitos ricos, o estado do planeta, o desrespeito pelos imigrantes e pelos direitos humanos, a ditadura intolerável dos mercados financeiros, a injustiça social, entre tantos outros.”
A indignação é um valor, a chave do compromisso que deve conduzir à acção política como tomada de consciência, decisão racional, desejo de servir, amor à justiça ou à verdade … A pior das atitudes é a indiferença!
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